sábado, 15 de setembro de 2018

Erês

Já que é mês de Cosme e Damião, vamos falar dos nosso Erês. O texto abaixo é um trecho da Apostila do Curso de Umbanda ministrado às quartas-feiras na Tenda de Umbanda Ogum Beira Mar, em Jacareí. 


Crianças (Erês)

Junto com os Caboclos e os Pretos Velhos, a linha das Crianças (ou Erês, como chamaremos daqui em diante) forma a tríade principal da Umbanda. Enquanto os caboclos representam a força e os Pretos Velhos a espiritualidade, os Erês representam a pureza. O processo para trabalho na Umbanda ocorreu similar aos Pretos Velhos, incluindo o momento do desencarne, que era comum assassinatos em massa de crianças na época da escravidão.

Quando desencarnados, já sabendo da missão de fundação e posterior anunciação da Umbanda, os espíritos das crianças foram direcionados para Aruanda para que os Pretos Velhos junto com os demais espíritos elevados, pudessem doutrinar aqueles recém desencarnados para que, aceitando sua missão, eles também pudessem trabalhar na Umbanda. Assim, mantendo a ternura e pureza de uma criança, aprenderam a manipular energias e se transformaram em grandes doutores da magia e, por serem desta forma puros e poderosos, conseguem entrar em domínios que outras entidades não o fazem.

Da mesma forma que as outras entidades, a linha dos Erês também possui os falangeiros, que são os primeiros espíritos doutrinados e que possuem a incumbência de ensinar outros espíritos desencarnados a trabalharem na linha dos Erês após seus resgates. Existe uma predileção em resgatar para este trabalho espíritos recém desencarnados de crianças ou adolescentes, porque apesar do espírito manter as informações das outras vidas, fica mais forte a impressão da última encarnação. Existem, porém, casos de adultos desencarnados pelos mais diversos motivos e que são chamados para o trabalho na linha dos Erês. O falangeiros, porém, foram todos crianças desencarnadas.

É sempre bom frisar que, apesar do que muitos imaginam, os Erês se apresentam como crianças e muitas vezes até são realmente, porém não existe como sequer supor que eles sejam menos experientes ou devam ser levados menos a sério do que qualquer outra linha. Relatos dão conta que hoje, no ano de 2018, o Erê que iniciou seu trabalho mais recentemente no Plano Espiritual tenha 140 anos (data de seu desencarne). Quando uma Erê se manifesta, saiba que ali se encontra a pureza de uma criança aliada à experiência da linha mais velha da Umbanda.

Uma curiosidade sobre a linha do Erês é que, mesmo no Plano Espiritual, são entidades que não podem ser governadas, apenas tutelada. Por isso muitas vezes quando existe um trabalho com os Erês num terreiro existe a presença de um Preto Velho, para que possa ajudar na tutela das entidades com os médiuns, especialmente os mais novos, visto que pela alegria das crianças e pela sua independência, as vezes as entidades correm, demoram muito com um assistido mesmo já tendo o atendido e quando são chamados para “subirem” (ou desincorporarem no médium), acabam reclamando. A única outra linha independente, que não se governa, é a linha dos Exús, nossos guardiões.
A Linha dos Erês atua fortemente também no Candomblé, com conceitos e doutrinas diferentes, e lá é de uma importância ainda maior, visto que como Orixá não se comunica diretamente através da fala (como já vimos anteriormente), então cabe aos Erês dar os recados do Plano Espiritual aos médiuns. Este é um conceito que, por doutrina pessoal do médium ou do dirigente, existe em alguns terreiros de Umbanda, porém não há estudos ou relatos de nossos irmãos no Plano Espiritual que indique que cabe exclusivamente aos Erês a entrega de mensagens aos médiuns, visto que todas as entidades manifestadas na Umbanda possuem a característica de se comunicar através da fala.

Quando existe a incorporação de um Erê, muitas vezes as entidades batem palmas, ou pulam, gritam, correm e até mesmo choram. Tudo isso (especialmente o choro) serve para de alguma forma informar à direção da casa algo que está ocorrendo e termos de energia e também já é uma forma de trabalho do Erê que inicia os trabalhos descarregando seu médium.

A vasta maioria dos Erês pedem brinquedos para realizar seus trabalhos. Existe a impressão que eles estão realmente brincando, mas na verdade estão energizando aqueles objetos e utilizando-os para alinhar energia do médium, do terreiro e, principalmente, dos assistidos. Na maioria das vezes o Erê pede para o assistido brincar com ele; isso ocorre justamente para que exista um alinhamento energético ou, em muitos casos, um descarrego. Nenhuma “brincadeira” feita por Erê deve ser vista de forma infantil como seria com uma criança encarnada.

O tamanho do poder dos Erês é tanto que são as únicas entidades na Umbanda que consegue manipular todos os elementais (aprenderemos mais para frente o que são e para que servem), algo que apenas os próprios Orixás conseguem fazer. Quando dizem que um “trabalho de Erê ninguém desfaz, nem mesmo Exú”, é exatamente por isso. Um Erê tem condições de manipular todos os elementais e criar uma magia forte o suficiente para ser mantida pelo tempo que for, ou até ele mesmo ou Deus decidir interromper.

Dito isso é importante frisar que ter a capacidade de realizar alguma ação por conta do poder que lhe é incumbido não denota que a entidade fará uso daquilo para práticas erradas. Não existe Erê que faça magia de baixa vibração. Se fizer, não está doutrinado e, não estando doutrinado, não faz mais parte da Umbanda. Sendo assim, temos que respeitá-los, mas de forma alguma temê-los.

O nome Doum também é sempre atrelado aos Erês, e isso acontece pelo fato de Doum ser referência a um ser que transita entre os planos materiais e espirituais nos cultos africanos. Quando uma família tinha filhos gêmeos e posteriormente tinha outro filho, este filho era chamado Doum e tinha a incumbência de fazer companhia e tomar conta de seus irmãos mais velhos. Os Erês são associados a Doum justamente por serem espíritos de crianças que cuidam das pessoas, inclusive das mais velhas.

Características Diversas

A maioria dos Erês, além de utilizarem brinquedos para trabalhar, também pedem comidas, geralmente doces e bolos, além de sucos e refrigerante (de preferência guaraná, por ser uma fruta genuinamente brasileira). Alguns médiuns mais antigos oferecem Aluá (bebida doce de origem indígena, feita com milho e frutas) ou até mesmo água com açúcar ao invés do refrigerante.

Erês usam velas para trabalhar, geralmente nas cores rosa claro, azul claro, bicolor (azul e rosa) ou branca. Quase todos os Erês pedem uma chupeta para trabalhar. As guia de contas dos Erês geralmente são nas cores rosa e azul claro, podendo conter também miçangas brancas. Como são entidades que trabalham junto aos Pretos Velhos, alguns, especialmente as linhas mais antigas, usam referências às energias de Avôs (cruz, miçangas brancas e pretas, Lágrima de Nossa Senhora); também podem usar alguma referência ao Orixá de regência da coroa do médium que trabalha com aquele Erê.

Alguns Nomes Conhecidos dos Erês

Diferente das demais linhas, todo Erê trabalha na vibração de algum Orixá, mas não necessariamente adota suas características, tendo muito mais relação com a linha de trabalho da entidade em si, ou de seu doutrinamento junto ao médium. Por isso alguns Erês não possuem um complemento no nome, mas quando existe este complemento, conseguimos identificar com qual Orixá que ele trabalha (atualmente são raras as manifestações).

·         Mariazinha;
·         Joãozinho;
·         Pedrinho;
·         Zequinha;
·         Aninha;
·         Mariazinha da Praia (ligação com Iemanjá);
·         Caboclo Mirim (ligação com Oxóssi);
·         Toninho;

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Boiadeiros

Olá povo. Hoje na Tenda de Umbanda Ogum Beira Mar teremos atendimento com a linha dos amados boiadeiros, com energização dos Caboclos de Xangô. Vamos conhecer um pouco mais dessa linha?

Boiadeiros

Após anunciada a Umbanda e os trabalhos ocorrerem com a tríade (Caboclo, Preto Velho e Erê), via-se a manifestação comum de entidades denominadas Caboclos Boiadeiros. Apesar de se apresentarem como caboclos, não se portavam com os trejeitos de um caboclo, sendo que por muitas vezes possuíam uma fala muito mais calma e aos poucos foram apresentando um sotaque que remetia às cidades mais rurais (o famoso “sotaque caipira”).

Pouco após foi anunciado que passaria a trabalhar na Umbanda uma nova linha, que seriam chamados de Boiadeiros, e teriam a principal incumbência de trabalhar com a cura de doenças e males diversos, além de descarregar energia negativa e magia de baixa vibração, através de seu laço ou seu chicote, que são usados como forte objeto de magia.

Uma das características da incorporação do boiadeiro é girar seu laço (plasmado, sem a necessidade de existir um objeto físico) sob a cabeça e gritar “Ê Boi”. Isso serve para anunciar sua chegada, mas principalmente é utilizado para iniciar o trabalho de dissipação de energia no terreiro. É bastante comum os boiadeiros trabalharem com chapéus, jalecos e até bombachas.

No Plano Espiritual, os Boiadeiros foram agrupados por espíritos desencarnados de pessoas que, em vida, trabalhavam com gado em fazendas de todo o Brasil, nas mais diversas atividades. Exatamente por esta forma que existem boiadeiros que apresentam os sotaques das mais diversas regiões brasileiras, em especial do Nordeste. Como eram trabalhadores do campo, estavam sempre cercado pelas matas, então foi dada a incumbência de doutrinação da linha aos Caboclos, por isso inicialmente vinham como Caboclos Boiadeiros.

Os Boiadeiros trabalham com bebidas fortes, geralmente pinga com alguma mistura (mel, melado, frutas, etc) ou vinho branco e fumam cigarro de palha (preferencialmente) ou charuto. São linhas que muitas vezes pedem ao seu médium que preparem pratos típicos de sua linha de trabalho, não apenas para eles mesmo apreciarem, mas para oferecer aos assistidos do terreiro. Feijão tropeiro com carne de boi, abóbora com farofa de torresmo são os pratos mais pedidos pelos Boiadeiros.

Sendo uma linha originada doa Caboclos, os Boiadeiros são exímios conhecedores do uso das ervas para vários fins, especialmente quando se trata de banhos e emplastros para melhorar a saúde. É bastante comum nos atendimentos os Boiadeiros indicarem banhos de erva, mesmo sem o assistido ter sequer dito qual problema eventualmente esteja sofrendo. As entidades possuem facilidade em visualizar as situações onde o uso de ervas pode ser empregado.

Os Boiadeiros representam a força de vontade aliada à paciência necessária para que determinada coisa aconteça. Por vezes os Boiadeiros orientam que os assistidos insistam em algo que acreditam ser o ideal para suas vidas, porém utilizando paciência, remetendo ao tempo em que, encarnados, passavam meses a fio esperando para pastorear um rebanho de gado, por exemplo.

Os Boiadeiros são regidos por iansã, então quando não há o cruzamento entre as linhas dos Orixás (Iansã com Oxóssi, Iansã com Obaluaiê, etc), a entidade se apresenta de forma mais viril, imponente, com gestos e atitudes mais rígidas e palavras por vezes ásperas. Muitas vezes, porém, existe o cruzamento entre o Iansã e Oxóssi (que é considerado o “pai” dos Caboclos), fazendo com que o Boiadeiro seja um pouco mais calmo no lidar.

Os Boiadeiros tendem a proteger os médiuns que possuem afinidade energética com eles, ou seja, os médiuns que possuem coragem, lealdade e honestidade. São entidades que costumam se manifestar para organizar um terreiro quando alguma ordem do dirigente da casa ou do guia chefe da casa não está sendo respeitada. Essas incorporações de instrução podem ocorrer mesmo em dia de atendimento com presença da assistência.

Características Diversas

A Linha dos Boiadeiros é uma das únicas na Umbanda que não utiliza uma guia de contas, sendo que a entidade trabalha com as guias que o médium costumeiramente usa (veremos mais para frente, mas seriam a guia de Oxalá e a Guia da Casa). Algumas entidades utilizam colar feitos com sementes, mas não são guias de contas, mas sim objetos de trabalho (como um terço é para um preto Velho).

Muitos Boiadeiros, especialmente os que trabalham com os médiuns mais antigos, falam com forte sotaque nordestino, sendo confundidos com a linha do Cangaço (a qual veremos a seguir), mas são Boiadeiros que, em vida, o Falangeiro atuou no Nordeste do Brasil. A incorporação de Boiadeiros femininos é extremamente rara, acontecendo essas manifestações pontuais mais recentemente.

Quando um Boiadeiro fala “boi”, está se referindo aos humanos, então “laçar um boi” é tratar este ser humano em desequilíbrio para tratá-lo de alguma forma. Os Boiadeiros falam muito através de analogias entre a nossa realidade atual e os tempos antigos do trabalho no campo.

Sempre interessante lembrar que apenas os falangeiros desta linha foram obrigatoriamente boiadeiros em sua última vida encarnada. Muitos dos Boiadeiros que trabalham nos terreiros sequer foram trabalhadores da roça, mas por afinidade energética ou pela possibilidade de trabalhar em determinado assunto para reverter seu carma (veremos este assunto posteriormente), acabaram decidindo aceitar a possibilidade de trabalhar nesta maravilhosa linha dentro da Umbanda.
O mestre Rubens Saraceni, que nos deixou em 2015, compilou algumas das expressões utilizadas pelos Boiadeiros e seu real significado:

·        Cavalos: os médiuns (foi justamente dos Boiadeiros que surgiu a expressão utilizada por praticamente todas as linhas);
·        Boi: espírito desgarrado de sua missão;
·        Boiada: grupo de espíritos reunidos pelo Boiadeiro que estão sendo reconduzidos ao propósito de Deus;
·        Laçar: recolher à força um espírito rebelado;
·        Boi Atolado: espíritos sofredores que estão no Umbral ou em zonas da baixa vibração;



Alguns Nomes Conhecidos dos Boiadeiros

·         Zé do Laço (entidade mais antiga a se manifestar nesta linha);
·         João Boiadeiro;
·         Zé da Campina;
·         Boiadeiro Chapéu de Couro;
·         Zé Boiadeiro;
·         Chico Boiadeiro;
·         Zé Mineiro;
·         Chico Mineiro;
·         Boiadeiro do Chapadão;
·         Zé da Serra;
·         Boiadeiro da Jurema.


terça-feira, 11 de setembro de 2018

A HISTÓRIA DA UMBANDA

Bom vamos "começar do começo". As primeiras postagens serão referente à história da Umbanda em si. Quando e como foi fundada. Quem fundou e aonde... enfim, um resumo histórico de nossa amada religião. Esse material faz parte do Curso de Umbanda. Se você tiver interesse em adquirir, entre em contato comigo (11 99913-5474 por WhatsApp).


A HISTÓRIA DA UMBANDA

Antes de falarmos sobre o que é a Umbanda, sobre rituais, liturgia, banhos, entidades, orixás, etc, é bom contar um pouco da história desta religião.

Zélio Fernandino de Moraes tinha apenas 17 anos em 1908 e, ao se preparar para ingressar na carreira militar na Marinha, começou a sofrer alguns “ataques”. Esses ataques eram caracterizados por Zélio se contorcendo e adotando postura física distintas. Certas vezes ele se curvava e falava frases desconexas, como se fosse alguém que tivesse vivido em outra época. Outras vezes sua postura era ereta e imponente, apresentando um suposto conhecimento sobre coisas da natureza.

O tio de Zélio, médico renomado na cidade de Niterói, Rio de janeiro, não conseguiu identificar nenhuma doença que pudesse justificar aquela atitude do jovem rapaz. Mesmo sendo uma aparente loucura, era algo inédito para ele. Sendo assim, fez o que muitos faziam na época, que era encaminhar para um padre realizar o tratamento espiritual. O tio de Zélio acreditava que seu sobrinho podia estar endemoniado.

Os pais de Zélio ficaram receosos em encaminhar ao pároco, então, seguindo o conselho de alguém da família, que dizia que aquilo era “coisa de espiritismo”, resolveram levar o adolescente a Federação Espírita de Niterói, em 15 de novembro do mesmo ano. As seções espíritas tinham regras muito bem definidas e rígidas. Entre essas regras, estava a que nenhum membro da “mesa branca” poderia sair daquele lugar após iniciado os trabalhos; porém, Zélio, tomado por uma força estranha, levantou e disse que ali naquele lugar estava faltando uma flor. Saiu da sala e pouco tempo depois retornou com uma flor, a qual colocou no centro da mesa. Tal atitude causou indignação em todos os médiuns trabalhadores da casa.

Restabelecido os trabalhos, vários dos médiuns deram passividade para espíritos que se diziam escravos e índios. O diretor dos trabalhos achou aquilo um absurdo e, os advertiu, dizendo que eram atrasados espiritualmente, convidando-os a se retirarem. Após este incidente, novamente um espírito incorporou em Zélio e, através dele, falou: - “Porque repelem a presença desses espíritos se nem sequer se dignaram a ouvir suas mensagens? Será por conta de suas origens e da cor? ”.

Um diálogo acalorado seguiu, com médiuns tentando doutrinar aquele espírito que se manifestava, porém o espírito incorporado apresentava argumentação segura e coerente. Um dos médiuns presentes questionou a entidade, perguntando porque ele falava naqueles termos, achando que a direção da casa pudesse aceitar a manifestação de espíritos que, pelo grau de cultura que tiveram quando encarnados, são claramente atrasados. O médium disse não entender porque a entidade manifestada falava como se fosse um índio, porém o médium, vidente, conseguia ver um jesuíta, com sua veste refletindo uma aura de luz. E por fim perguntou o nome da entidade, que respondeu:
- "Se querem um nome, que seja este: sou o Caboclo das Sete Encruzilhadas, porque para mim, não haverá caminhos fechados. O que você vê em mim, são restos de uma existência anterior. Fui padre e o meu nome era Gabriel Malagrida. Acusado de bruxaria fui sacrificado na fogueira da Inquisição em Lisboa, no ano de 1761. Mas em minha última existência física, Deus concedeu-me o privilégio de nascer como caboclo brasileiro.

"Se julgam atrasados os espíritos de pretos e índios, devo dizer que amanhã (16 de novembro) estarei na casa de meu aparelho, às 20 horas, para dar início a um culto em que estes irmãos poderão dar suas mensagens e, assim, cumprir missão que o Plano Espiritual lhes confiou. Será uma religião que falará aos humildes, simbolizando a igualdade que deve existir entre todos os irmãos, encarnados e desencarnados”.

O vidente perguntou ironicamente ao Caboclo das Sete Encruzilhadas se ele esperava que alguém assistiria a seu culto. Obteve a resposta: - "Cada colina de Niterói atuará como porta-voz, anunciando o culto que amanhã iniciarei. "Deus, em sua infinita Bondade, estabeleceu na morte, o grande nivelador universal, rico ou pobre, poderoso ou humilde, todos se tornariam iguais na morte, mas vocês, homens preconceituosos, não contentes em estabelecer diferenças entre os vivos, procuram levar essas mesmas diferenças até mesmo além da barreira da morte. Porque não podem nos visitar esses humildes trabalhadores do espaço, se apesar de não haverem sido pessoas socialmente importantes na Terra, também trazem importantes mensagens do além?".

No dia seguinte, na hora marcada, na casa da família Moraes, na Rua Floriano Peixoto número 30, ao se aproximar da hora marcada, 20:00, estavam presente os membros da Federação Espírita para comprovar a veracidade o que havia sido dito. Parentes mais próximos, amigos, vizinhos e uma multidão de desconhecidos também esperavam no lado de fora da casa. Às 20:00 o Caboclo das Sete Encruzilhadas se manifestou. Disse que naquele momento iniciava um novo culto, em que os espíritos de velhos africanos que eram escravos em vidas anteriores e, desencarnados, não conseguiram atuar no campo espiritual nas seitas africanas, muitas já deturpadas e em sua maioria voltadas à feitiçaria, poderiam se manifestar. Os índios nativos de nossa terra também poderiam trabalhar em auxílio aos irmãos encarnados, sem discriminação em relação a cor, credo ou condição social.

A principal característica deste culto seria a caridade baseada no amor fraterno, que teria como base o Evangelho de Jesus. O Caboclo das Sete Encruzilhadas estabeleceu uma rotina de horários para os atendimentos espirituais, que seriam diários das 20:00 às 22:00. Os participantes se vestiriam de branco e o atendimento seria gratuito. Fo dado também o nome àquele culto: Umbanda, que seria a manifestação do espírito para a prática da Caridade.

Aquela casa de trabalhos espirituais recebeu o nome de Nossa Senhora da Piedade, porque assim como Maria acolheu seus filhos nos braços, também todos seriam acolhidos quem precisasse de ajuda ou algum tipo de conforto espiritual.
O primeiro atendimento se deu a um paralítico, fazendo este ficar curado. Houve uma questionamento sobre a veracidade daquele atendimento, entendendo que poderia ter sido algo combinado entre Zélio e o suposto enfermo, porém todas as pessoas foram atendidas e todas foram curadas pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas.

Foi neste mesmo dia que Zélio deu passividade ao espírito de um preto velho, que se identificou como Pai Antônio. O preto velho se recusou a sentar na mesa, dizendo que ali era lugar de “sinhô branco”, preferindo ficar sentado em um toco que, segundo ele, era “lugar de nêgo”. Foi com Pai Antônio que o primeiro elemento de trabalho na Umbanda foi pedido. O preto velho disse: - “Nêgo qué pito que deixou no toco. Manda mureque busca”. Também pediu um dos elementos mais usados na Umbanda até hoje, a guia de contas. Até hoje é chamada de Guia de Pai Antônio.

Nos dias que se sucederam verdadeiras romarias iam até ao terreiro Nossa Senhora da Piedade. Outros guias iniciaram seus trabalhos entre eles o Caboclo orixá Malé, que tinha grande experiência nos trabalhos de desmanche de trabalhos de magia negra (esta entidade se apresentou como caboclo para facilitar seu trabalho junto à assistência, mas tratava do primeiro Exu a trabalhar na Umbanda).

Dez anos após ser anunciada a Umbanda, o Caboclo das Sete Encruzilhadas recebeu orientação do Astral Superior para fundar sete tendas de Umbanda, cada um com seu nome, mas fazendo parte da mesma egrégora: Tenda Espírita Nossa Senhora da Guia; Tenda Espírita Nossa Senhora da Conceição; Tenda Espírita Santa Bárbara; Tenda Espírita São Pedro; Tenda Espírita Oxalá, Tenda Espírita São Jorge; e Tenda Espírita São Gerônimo. Enquanto Zélio esteve encarnado, foram fundadas mais de 10 mil tendas, tendo como base essas sete originais.

As tendas receberam nomes de santos católicos para ser um ponto de referência para católicos que buscavam atendimento na Umbanda. E o termo “tenda Espírita” se dava porque o nome Umbanda não podia ser registrado ainda.

Zélio Fernandino não seguiu a tão esperada carreira militar, porém sempre trabalhou muito para sustentar sua família e sua tenda de Umbanda, pois conforme havia sido determinado pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, o atendimento aos assistidos deveria ser gratuito. Sempre que alguém que conseguia determinada graça queria pagar por aquilo, o Caboclo dizia para Zélio não receber nada, ou devolver qualquer valor dado a ele por trabalhos em sua tenda.

Os rituais litúrgicos na época eram simples: cânticos baixos e harmoniosos, roupas brancas, proibição de sacrifício de animais. As guias de contas eram utilizadas apenas mediante a orientação da entidade, e não seguiam qualquer padrão estabelecido pelo médium. Apesar de ter sido divulgado que oportunamente seria introduzido na Umbanda, inicialmente não existiam atabaques e palmas, tão pouco vestimentas de cor, cocares e rendas.
Desde o início, porém, foram utilizados banhos de ervas, amacis e a concentração nos ambientes vibratórios da natureza, junto ao ensinamento doutrinário do Evangelho de Jesus.

Após 55 anos de atividade, em 1963, a Tenda Nossa Senhora da Piedade foi entregue a direção à Zélia e Zilméia, filhas de Zélio de Moraes. Após esta data, Zélio e sua esposa foram trabalhar na Cabana de Pai Antônio, em Cachoeiras de Macacu, no Rio de Janeiro, onde focavam atendimento aos portadores de enfermidades psíquicas. Isabel, esposa de Zélio, trabalhava com o Caboclo Roxo, posteriormente denominado também Caboclo Pena Roxa.

Em 1971 uma mensagem do Caboclo das sete Encruzilhadas conseguiu ser gravada por Lilia Ribeiro, diretora da TULEF – Tenda de Umbanda Luz, Esperança e Fraternidade, do Rio de Janeiro. A mensagem segue até hoje como grande exemplo de como se dá a evolução espiritual de uma entidade que trabalha na Umbanda:
"A Umbanda tem progredido e vai progredir. É preciso haver sinceridade, honestidade e eu previno sempre aos companheiros de muitos anos: a vil moeda vai prejudicar a Umbanda; médiuns que irão se vender e que serão, mais tarde, expulsos, como Jesus expulsou os vendilhões do templo. O perigo do médium homem é a consulente mulher; do médium mulher é o consulente homem. É preciso estar sempre de prevenção, porque os próprios obsessores que procuram atacar as nossas casas fazem com que toque alguma coisa no coração da mulher que fala ao pai de terreiro, como no coração do homem que fala à mãe de terreiro. É preciso haver muita moral para que a Umbanda progrida, seja forte e coesa. Umbanda é humildade, amor e caridade – esta a nossa bandeira.
Neste momento, meus irmãos, me rodeiam diversos espíritos que trabalham na Umbanda do Brasil: Caboclos de Oxossi, de Ogum, de Xangô. Eu, porém, sou da falange de Oxossi, meu pai, e não vim por acaso, trouxe uma ordem, uma missão. Meus irmãos: sejam humildes, tenham amor no coração, amor de irmão para irmão, porque vossas mediunidades ficarão mais puras, servindo aos espíritos superiores que venham a baixar entre vós; é preciso que os aparelhos estejam sempre limpos, os instrumentos afinados com as virtudes que Jesus pregou aqui na Terra, para que tenhamos boas comunicações e proteção para aqueles que vêm em busca de socorro nas casas de Umbanda. Meus irmãos: meu aparelho já está velho, com 80 anos a fazer, mas começou antes dos 18. Posso dizer que o ajudei a casar, para que não estivesse a dar cabeçadas, para que fosse um médium aproveitável e que, pela sua mediunidade, eu pudesse implantar a nossa Umbanda.
A maior parte dos que trabalham na Umbanda, se não passaram por esta Tenda, passaram pelas que saíram desta Casa. Tenho uma coisa a vos pedir: se Jesus veio ao planeta Terra na humildade de uma manjedoura, não foi por acaso. Assim o Pai determinou. Podia ter procurado a casa de um potentado da época, mas foi escolher aquela que havia de ser sua mãe, este espírito que viria traçar à humanidade os passos para obter paz, saúde e felicidade. Que o nascimento de Jesus, a humildade que Ele baixou à Terra, sirvam de exemplos, iluminando os vossos espíritos, tirando os escuros de maldade por pensamento ou práticas; que Deus perdoe as maldades que possam ter sido pensadas, para que a paz possa reinar em vossos corações e nos vossos lares. Fechai os olhos para a casa do vizinho; fechai a boca para não murmurar contra quem quer que seja; não julgueis para não serdes julgados; acreditai em Deus e a paz entrará em vosso lar. É dos Evangelhos. Eu, meus irmãos, como o menor espírito que baixou à Terra, mas amigo de todos, numa concentração perfeita dos companheiros que me rodeiam neste momento, peço que eles sintam a necessidade de cada um de vós e que, ao sairdes deste templo de caridade, encontreis os caminhos abertos, vossos enfermos melhorados e curados, e a saúde para sempre em vossa matéria. Com um voto de paz, saúde e felicidade, com humildade, amor e caridade, sou e sempre serei o humilde Caboclo das Sete Encruzilhadas".

Em 03 de outubro de 1975 Zélio desencarnou, tendo dedicado 66 anos de sua vida à Umbanda.

O QUE É UMBANDA

Agora que conhecemos um pouco a história da Umbanda, precisamos deixar claro que a Umbanda não é uma seita, não é um apenas culto, não é uma doutrina. Umbanda é uma religião.

Sendo uma religião, a Umbanda possui, além de história, também elementos de fé e litúrgicos para nortear os passos de seus adeptos. A Umbanda é uma religião nova e moderna, sendo assim tem muito mais a necessidade de fazer com que seus adeptos se liguem com Deus, do que sigam determinada orientação de forma automática. Diferente de outras religiões, como o Catolicismo e Protestantismo (que seguem a Bíblia), o Islamismo (que segue o Alcorão), o Judaismo (que segue a Torá), a Umbanda não possui um Livro Sagrado para ser lido e interpretado. Tudo que surge na Umbanda é orientação diretamente do Plano Espiritual, ditado por entidades que trabalham para Deus nas mais diversas formas.

Todas essas orientações, porém, dão margem para interpretações. Existem terreiros de Umbanda que entendem que um médium tem que trabalhar apenas com roupas brancas, enquanto outro terreiro entende que nas giras de Esquerda uma roupa preta pode ser utilizada sem maiores problemas. Não existe um certo e um errado, porém todas as formas de interpretação dos ensinamentos devem convergir no seguinte ponto: Caridade. Se não for um trabalho feito visando a Caridade, então não é Umbanda.

Diferente do que dizem, a Umbanda não é uma religião de matriz africana. Este conceito é aceito por muitos, porém sendo uma religião fundada no Brasil por uma entidade que teve em sua última encarnação uma passagem como índio brasileiro, se manifestando em um médium brasileiro, e historicamente tendo dito que se trata de uma religião brasileira, não podemos entender que é uma religião de matriz africana.

Fato é que, sim, muitos elementos de outras religiões foram introduzidos e adaptados à Umbanda, entre eles conceitos fundamentais do Candomblé (esta, sim, uma religião africana), como o culto aos Orixás, que também regem a Umbanda. Uma religião, porém, não pode ter sua raiz definida apenas na forma de onde surgiu parte do culto onde foi adaptada. Os orixás foram inicialmente cultuados no Candomblé, mas a origem dos orixás, sua essência Divina, não possui fronteiras, o que não nos permite dizer que é uma religião de matriz africana, diferente do Candomblé.

Além do culto aos Orixás, a Umbanda adotou outros elementos do Africanismo (atabaques, por exemplo) e também de outros elementos religiosos distintos. O Orientalismo, o Cristianismo, o Kardecismo e o Indianismo fazem parte da Umbanda. Sendo assim, a Umbanda é uma religião com matriz brasileira e que consegue agregar elementos de, em tese, todas as outras religiões.

A Umbanda é uma religião monoteísta, portanto acredita em um único Deus, criador de tudo, de sabedoria infinita, onisciente e onipresente. Trabalham com Deus, como regentes dos elementos da natureza, os Orixás. Esses orixás, que possuem controle da natureza, também possuem características morais e são dotados de emoções, como raiva, ciúmes, amor em excesso, paixão, etc. Os orixás também possuem controle sobre ofícios e condições humanas, como agricultura, pesca, metalurgia, guerra, maternidade, saúde, etc.

Os Orixás, no entanto, são as entidades mais evoluídas, estando abaixo apenas de Deus. Essas características dos Orixás existem apenas quando os mesmos lidam com aqueles que o cultuam através das mais diversas religiões que o fazem, como a Umbanda. Essa característica dos Orixás junto a seus seguidores serve para ajudar em algo fundamental nas religiões: harmonia.

Além de Deus e dos Orixás, trabalham no Plano Astral e Espiritual em auxilio à Umbanda os espíritos de luz, denominados Guias. Esses guias atuam por diversas vezes incorporados ao médium e dão atendimento aos assistidos, que são as pessoas que procuram os préstimos nos terreiros de Umbanda. Esses guias trabalham nas mais diversas linhas e são divididos em falanges, porém as três linhas iniciais e, até hoje tidas como as principais, são dos caboclos, dos pretos velhos e das crianças. Isso ocorre devido um movimento no Plano Espiritual que ocorria antes da anunciação da Umbanda.


Em 1500 quando os portugueses desembarcaram no Brasil, teve início um processo de domínio através de assassinatos de índios (que sempre foram os verdadeiros “donos” do Brasil) e dos escravos negros, que eram trazidos à força da África. As crianças indígenas e também negras que tinham alguma doença e eram consideradas uma “mercadoria sem uso futuro” muitas vezes eram mortas, o que causava uma forte revolta nas comunidades as quais elas pertenciam, e com isso o inevitável revide aos filhos dos brancos que cometiam essa atrocidade. Com o tempo os negros e os índios lutaram pela liberdade, mas no plano espiritual a revolta continuava. Os desencarnados índios, negros e crianças foram doutrinados e aprenderam a trabalhar juntos em prol do próximo, seja ele índio, negro, branco ou qualquer raça. Com esta força espiritual preparada para trabalhar, a Umbanda pôde ser anunciada com o suporte espiritual necessário.

Olá

Esse espaço será destinado para divulgação de estudos sobre a Umbanda. Desde estudos de temas teoricamente mais simples, até assuntos um poucos mais polêmicos. Esse espaço não está vinculado oficialmente a nenhum terreiro (mas sou orgulhoso trabalhador a Tenda de Umbanda Ogum Beira Mar, em Jacareí/SP), portanto não representa necessariamente as ideias de uma ou outra casa. O que colocarei aqui são informações que obtive com o tempo de experiência que tenho, não apenas estudando, mas principalmente frequentando esta linda religião.

Deixem mensagem aqui se vocês estiverem dicas ou dúvidas. Vamos construir este espaço juntos.

Essa postagem aqui é um teste, então esperem pelo primeiro estudo, onde falaremos sobre alguns dos rituais de Umbanda.

Axé

Sergio