Olá povo lindo do Axé. O assunto de hoje causa sempre muita polêmica, porque diz respeito a algo que anda entre Umbanda e Candomblé, que apesar de serem religiões distintas, ainda existe uma estranha mania das pessoas acharem que um depende do outro, e boa parte dos umbandistas sofre do que eu chamo de "complexo do cachorro vira-lata" (salve Nelson Rodrigues), pois infelizmente pensam que o Candomblé é melhor ou "mais forte" que a Umbanda. Esse complexo, além de trazer coisas como descobrir o Orixá pelos búzios (que não, NÃO é um fundamento da Umbanda), gera em boa parte dos umbandistas uma necessidade de copiar os rituais do Candomblé.
Eu entendo que a Umbanda é uma religião moderna que traz para seu cerne vários conceitos de outras religiões, inclusive do Candomblé, mas tudo tem que ser feito com fundamento, e não apenas pegar parte de um ritual que tem seu fundamento em outra religião, e trazer para a Umbanda. É a mesma coisa que pegar um capítulo de um livro e baseado apenas neste capítulo querer resumir o livro todo e ainda se dizer especialista. Mas, Sergio, o que isso tem a ver com incorporar ou não incorporar Orixá na Umbanda? Simples, no Candomblé, conforme dita os conceitos daquela religião, os Orixás foram indivíduos dotados de características especiais que os diferenciavam e, já encarnados eram considerados divindades. Com o tempo, ascenderam ao Plano Espiritual, aonde vivem e comandam tudo até hoje.
Baseado nisso, pelo fundamento do Candomblé, existe a incorporação do Orixá em si em algumas casas e de representantes desses Orixás em outras. Então é crível que ali, sim, existe a manifestação de um Orixá propriamente dito. Na Umbanda, no entanto, não podemos dizer isso, simplesmente porque independente da vertente que o terreiro siga (alguns acreditam que os Orixás existiram encarnados e ascenderam e, ali, se tornaram divindades e outros acreditam que os Orixás são forças da natureza), sabemos que não há como um único indivíduo (Orixá) possa incorporar em mais do que uma pessoa ao mesmo tempo (Orixás seriam INDIVÍDUOS). O que existe na Umbanda não é a incorporação propriamente dita do Orixá, mas sim de um CABOCLO que atua na vibração daquele Orixá.
Neste ponto, vale a pena lembrar que existem vários níveis hierárquicos mesmo na Espiritualidade, sendo que os caboclos que atuam nos terreiros, incorporados e prestando atendimento, são os Guias que acompanham uma pessoa. Além deste caboclo, existem os capangueiros, que são representantes dos Orixás dentro de cada falange. Esses capangueiros são os responsáveis em trazer para o terreiro, através de um médium, a "força bruta" daquele Orixá que representa. É por este motivo, que na maioria das vezes eles dançam trazendo seu Axé e não falam absolutamente nada, pois não faz parte de sua missão fazer isso. Quando manifestado em um terreiro, o faz para energizar com a força daquele Orixá a casa, os médiuns e consulentes.
Vimos que na Umbanda não se manifesta Orixá, mas sim Caboclo. Isso é polêmico? Sim, certamente... mas vai ficar ainda mais. E se eu disser que na maioria das vezes não é nem Caboclo que incorpora no médium, mas o próprio médium? E, ainda por cima, não é animismo! É uma situação um pouco mais complicada de entender, mas ela vem para justamente respaldar alguns dos conceitos mais tradicionais da religião, que é o tal "pai ou mãe de coroa" de alguém. Vamos entender:
Todo mundo tem algo que chamamos de ori. Nosso ori serve basicamente para duas coisas: contato com o Plano Espiritual (quando existe incorporação, ela se inicia através de nosso ori, por isso é considerado algo sagrado) e armazenamento de todas as informações que recebemos do Plano Espiritual. Entre essas informações, está as informações que o médium recebe da vibrações de seu Orixá de Coroa (já vimos o que é isso). Vamos pegar meu caso como exemplo: eu sou filho de Oxóssi (quer dizer que Ele é meu Orixá de Coroa), então desde meu nascimento recebo as informações da força de Oxóssi e essas informações são armazenadas no meu inconsciente, o que faz com que eu tenha algumas das características deste Orixá.
Como esta informação está armazenada em meu inconsciente, de uma forma natural (e isso é científico, não se trata de especulação) o meu consciente é sempre "abastecido" por essas informações. Quando o médium de forma consciente se concentra para dar passividade ao Orixá, na maioria das vezes não é um guia que se aproxima, mas as informações do Orixá em si que estão impressas na mente do médium que se manifesta. Se eu puxar na memória, inúmeras vezes escutei de guias "salve sua coroa" ou algo parecido. Quando isso acontece, eles estão saudando o Orixá que carregamos em nosso coroa (ou em nosso ori). Então é certo dizer que todos nós carregamos a essência do Orixá e é natural e muito lindo quando há a manifestação desta energia junto ao médium.
Por essas e outras eu disse lá no começo do texto que este assunto é bastante polêmico. Nós não manifestamos o Orixá; nós manifestamos ou um Caboclo que atua na vibração daquele Orixá, ou manifestamos nosso inconsciente que está irradiado com a energia do Orixá. E tudo isso é muito lindo, pois esta complexidade que é voltada para o crescimento do indivíduo que fortalece nossa religião.
Salve todos os Orixás da Umbanda
Salve nosso Ori
Axé
Excelente!
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