TATA
CAVEIRA
Eu
respeito todas as entidades que trabalham na Umbanda da mesma forma. Acredito
que todas são maravilhosas e se prestam à Caridade, então por si só isso já me
trona uma fã de carteirinha de nossa religião e dos trabalhadores que a
sustentam. Existem, porém, alguns guias que tenho maior afinidade e, por isso,
acabo me inteirando mais de suas histórias e conhecendo sua forma de pensar e
agir dentro da religião. Certamente uma dessas entidades é o Exu Tata Caveira,
o qual me acompanha e me dá a honra de ser seu aparelho para trabalhos nos
terreiros.
Quero
dizer que o que falarei aqui não se trata de uma regra de como são os Exus
desta linha, afinal de contas cada um desses guias tem a sua história e
trabalham com o nome do Falangeiro que o doutrinou dentro da religião. O Seu
Tata que trabalha comigo pode ser diferente daquele que trabalha com o leitor,
que pode ser diferente daquele que trabalha com o amigo do leitor. Existem,
sim, pontos em comum que falarei a respeito, mas esse texto específico será,
como editei o texto agora e consegui perceber, um verdadeiro desabafo deste
maravilhoso Guia.
Outro dia
conversava com Seu Tata a respeito de como eu deveria agir em uma situação
específica. Sua resposta foi bastante clara, como há muito ele não era (geralmente
eu sou intuído, mas desta vez eu escutava de forma bastante clara como se ele
estivesse ali). Ele me disse algo assim:
"Você
me conhece há tempo o suficiente para saber que não vou te colocar neste ou
naquele caminho. Você é inteligente para saber distinguir o certo do errado,
então basta fazer isso e tomar a decisão certa". Sim, eu já sabia
disso, mas mesmo assim queria uma dica, algo que pudesse me amparar. Foi então
que tive uma lição de humildade e pude entender um pouco de sua história. As palavras
dele me parecem ainda mais claras quando busco na memória recente:
"Seu
conhecimento me parece estar minguando a cada dia. Nós dois somos trabalhadores
da religião de Umbanda, com a única diferença que eu fui abraço pela
Espiritualidade e, depois de muito penar, abracei de volta. E você? Você
abraçou de verdade a Umbanda, ou gosta de falar que é umbandista? Se você tem o
conhecimento do que deve e do que pode fazer dentro dos ensinamentos que teve,
então faça. Se não tiver, quer dizer que seu desequilíbrio com Aquele que
carrega na coroa está maior do que eu pensava. Se tem o conhecimento e não
pratica, então te falta fé, e trabalhador da Espiritualidade sem fé, não é nada
além de uma carcaça a prejudicar os outros. E digo prejudicar porque você só consegue
dar aquilo que tem, então se alguém buscar conforto espiritual em você, não
terá nada de volta além de mais dúvidas."
A resposta
que eu tive foi quase um soco no estômago e me fez refletir muito a respeito de
quem eu sou dentro da religião e o que posso ser. Baseado nisso, perguntei a
Seu Tata se ele poderia me falar um pouco de sua história, não para que eu
seguisse à risca (lógico que não), mas para que pudesse entender um pouco mais
como se dá a evolução de um espírito (encarnado ou não) na Umbanda. Sua
resposta foi:
"Você
bem sabe que não gosto de contar histórias, porque na minha situação atual,
onde eu carrego o nome de meu Mestre, remeter ao meu passado e contar isso para
as pessoas pode me trazer de volta a vaidade que me fez cair. Eu vou te
explicar algumas das partes principais de quem fui e como me desenvolvi, para
que você perceba o como podemos ser iguais. Não entenda isso como minha
história pessoal, mas como uma lição.
Quando
encarnado cometi vários atos que eram errados sem sombra de dúvidas. Eu era
inteligente, tinha conhecimento do que era certo e do que era errado, e por
minha única vontade decidi fazer as coisas que eram erradas. Quando agimos de
forma correta, damos um pequeno passo para frente; quando agimos de forma errada,
corremos para trás. Minha caminhada errada me fez regredir muito, me tornando
tudo aquilo que eu não poderia ser: pensava apenas em mim e não me importava em
pisar nas outras pessoas, por qualquer motivo que fosse. Eu achava que era a
pessoa mais importante que existia, e aquilo me colocava em uma posição onde eu
precisava ser adorado pelos outros. Meu ego era cheio de volúpia enquanto vivo,
e quando desencarnei percebi que ninguém chorava por mim, então meu coração se
encheu de ódio.
Passei por
incontáveis anos fazendo o mal pela simples vontade de fazer. Ao contrário do
que muitos contam, existem espíritos obsessores que trabalham sozinhos e não
recebem nada em troca, além da angústia das outras pessoas. Em determinado
momento fui resgatado por aquele que se tornaria meu Mestre. Se passei décadas
praticando maldade, passei muitas outras mais aprendendo que aquilo era errado
e sendo doutrinado para trabalhar visando reverter tudo aquilo de errado que
tinha feito antes. Quando pude aprender o suficiente para trabalhar na Umbanda,
aprendi minha última e maior lição: meu Mestre Falangeiro, que havia me curado
a alma, tirou qualquer resquício de vaidade ao me tirar a pele, os músculos e
os órgãos. A partir daquele instante eu seria Caveira como ele se apresentava,
porque todos temos nossas caveiras no corpo, portanto seria minha aparência
esquelética o símbolo de que não há distinção física alguma entre os seres, e o
que importa é a evolução de cada um.
Quero que
você entenda que quando você sabe que algo é errado e mesmo assim faz aquilo,
está andando para trás; está se tornando uma pessoa má, e tudo aquilo que você
fizer nesta vida vai te acompanhar para sempre. Você não sabe o dia que vai
desencarnar, então não deve ficar com esta sua mania de achar que dará tempo
para arrumar tudo aquilo de errado que fez. Pode ser que não dê, e se isso
acontecer o que você vai fazer a respeito? Chorar a oportunidade que perdeu? Se
tornar um dos obsessores que tanto nos dá trabalho? Eu só conheci a Umbanda
depois de muito tempo após desencarnar, mas você não. Você tem a oportunidade
de seguir um caminho muito melhor do que eu segui, sabendo de coisas que eu não
sabia e tendo instrumentos para melhorar que eu não tive. Então abrace a
Umbanda como eu fiz. Não faça isso da boca para fora, porque falar que é
umbandista é fácil. Haja como umbandista."
Sabe quando você fica atônito por um
bom tempo, completamente sem reação? Pois bem, eu fiquei desta forma. Passei
alguns dias assimilando tudo o que foi dito e decidi rever alguns
posicionamentos em relação a coisas que eu fazia de uma forma automática, incluindo
a minha atuação dentro do terreiro que trabalhava. Existiam situações que não
cabem aqui expor, mas que não eram de meu agrado. Eu sempre consegui ter o
entendimento que os terreiros de Umbanda são diferentes um do outro e sei que
não existe um certo e um errado (religião não é matemática), mas sempre tive um
olhar crítico em demasia quando algo acontece de uma forma que eu não
concordava ou que eu tinha aprendido de forma diferente. Eu decidi perguntar a
Seu Tata o que ele entendia sobre esse assunto. Não pedi orientação, apenas sua
opinião:
“A forma certa de girar em um terreiro de
Umbanda é se melhorar a cada trabalho feito. Quando a assistência está cheia de
pessoas, quer dizer que o terreiro é bom, que ajudou alguém que convidou outra
pessoa. Se você acha que consegue fazer melhor que quem dirige a casa, então
abra um terreiro para comandar. Mas faça isso sabendo que para alguém a forma
que você vai decidir o que será feito e a forma como será feito estará errada. Eu
vou te acompanhar sempre em todos os lugares que você for porque me foi dada a
incumbência de te ajudar em sua evolução da mesma forma que você me ajuda, mas
a partir do momento que você fizer algo que eu considere errado dentro de um
terreiro que decida tomar a frente, farei você aprender da pior maneira o que é
humildade, e ser humilde passa por aprender com aqueles que vieram antes de
você. Se não te couber, aceite a diferença, não diga e nem pense que está
errado. Se fizer isso, quer dizer que tem um remédio que não existe para uma
doença que ninguém sabe qual é. Você precisa entender que não é melhor e nem
pior que qualquer pessoa.
Se uma casa não te agrada, peça o
afastamento como tem que ser: respeitando quem está à frente e todos os
trabalhadores. Procure uma casa que te agrade por completo e quando não
encontrar, volte humildemente pedindo perdão. ”
Essas conversas me mostram como sou
pequeno diante a Espiritualidade e o como ainda temos todos que evoluir para
termos o entendimento que esses Guias de Luz possuem. Agradeço sempre pela
oportunidade de ser amparado por todos esses Guias maravilhosos, em especial
Seu Tata Caveira, que me ajuda muito em tudo, inclusive quando me dá esse tipo
de bronca (aliás, acho que me ajuda mais ainda quando “come meu toco”).
Falado um pouco sobre a história
pessoal entre Seu Tata e eu, vamos explicar como atua a linha dos Caveira num
geral. Primeiramente precisamos esclarecer que a Linha dos Caveira, como são
conhecidos os Exus de Cemitério (ou Calunga Pequena), é formada por alguns
poucos falangeiros (lembram quem são, né?) que atuam rigorosamente da mesma
forma. A razão de existir mais de um falangeiro é porque esses indivíduos que
aceitaram a missão de trabalharem na Umbanda foram evoluindo e tiveram
afinidade com Obaluaiê, o Orixá que atua justamente na Calunga Pequena. Creio
que com o passar dos anos novas falanges na Linha dos Caveiras surgirão para
nos auxiliar na Umbanda.
Não consigo dizer ao certo quais são todos
os falangeiros na Linha dos Caveiras, mas certamente os mais conhecidos são:
Exu Caveira (o primeiro falangeiro desta Linha a se manifestar), João Caveira,
Sete Caveiras e Tata Caveira. Existem outros guias do Cemitério, mas não são da
Linha dos Caveira (Exu Sete Catacumbas, por exemplo).
Já vimos que Tata Caveira é regido por
Obaluaiê, então de uma forma natural uma de suas principais funções é atuar no
afastamento de doenças e males espirituais que possam somatizar na pessoa e causar
algum dano físico. Tendo essa missão de atuar na parte espiritual revertendo
ataques de espíritos obsessores que possam causar algum tipo de doença, a Tata
Caveira foi dado o conhecimento para entender e manipular qualquer tipo de
magia (seja de alta ou de baixa vibração). Esse conhecimento transformou Tata
Caveira em um verdadeiro Mestre da Magia, sendo uma das poucas linhas da
Umbanda a conseguir desfazer sozinha trabalhos de magia com o uso de sacrifícios
para os kiumbas.
Sabido de sua missão, é muito raro
encontrar algum Guia que atua na linha de Seu Tata Caveira que fala muito a
respeito do que faz, ou que se vangloria de seus feitos, isso porque o
falangeiro Tata Caveira exige humildade de seus subordinados, pois sabe que o
ego é traiçoeiro e pode derrubar quem quer que seja, inclusive algum Guia de
Luz.
Gostou de conhecer Sr.Exu Tata
Caveira? Bacana né? Vou ensinar abaixo como arriar uma oferenda de
AGRADECIMENTO (não peçam nada) para este guia maravilhoso:
Vocês precisarão de:
1 Alguidar (médio ou grande)
Farinha de milho branco
Farinha de milho amarelo
1 cebola roxa
7 pimentas vermelhas
3 bifes de fígado
Azeite de dendê
1 garrafa de cachaça
3 velas pretas
3 velas brancas
1 vela cruzada preta e vermelha
3 charutos
- No alguidar coloque primeiro a farinha branca e regue com bastante cachaça. Misture com as mãos, colocando todas as suas boas vibrações naquele ato.
- Repita com a farinha amarela.
- Coloque as duas farinhas no alguidar, dividindo um lado a branca e do outro lado a amarela.
- Frite no azeite de dendê os bifes (não muito, apenas para não sair mais sangue) e distribua em cima das farinhas.
- Corte a cebola em 7 rodelas e distribua uniformemente sob a farinha e os bifes.
- Enfeite com as pimentas.
- Regue o padê com uma boa quantidade de cachaça e depois com o dendê.
- No lado de fora do alguidar coloque a garrafa de cachaça
- Firme as velas, colocando na parte de cima a vela cruzada e de um lado as velas pretas e de outro as brancas.
- Acenda os charutos e para cada um deles, dê 7 baforadas no padê, pedindo que Seu Tata receba aquela oferenda de bom grado. Coloque os charutos ou na frente do alguidar (do lado de fora) ou de uma forma bonita e harmoniosa dentro do alguidar (com o lado da chama para fora).
Faça isso com muita FÉ e GRATIDÃO a
Tata Caveira, nosso amado Guardião.
Obs: se você já tiver uma boa firmeza,
peça orientação a seu sacerdote para arriar no cemitério. Se não, eu aconselho a
fazer esta firmeza no terreiro mesmo.
“Ninguém
é tão bom que incorpore Jesus Cristo e nem tão ruim que incorpore o Diabo” –
Tata Caveira.


👏👏👏👏
ResponderExcluirÓtimo texto, parabéns Sérgio!.
ResponderExcluirAmei
ResponderExcluirTexto maravilhoso
Desejo saber mais
Inclusive oferendas
Coisas desse tipo e não encontro
Gratidão