quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Tata Caveira


TATA CAVEIRA

Eu respeito todas as entidades que trabalham na Umbanda da mesma forma. Acredito que todas são maravilhosas e se prestam à Caridade, então por si só isso já me trona uma fã de carteirinha de nossa religião e dos trabalhadores que a sustentam. Existem, porém, alguns guias que tenho maior afinidade e, por isso, acabo me inteirando mais de suas histórias e conhecendo sua forma de pensar e agir dentro da religião. Certamente uma dessas entidades é o Exu Tata Caveira, o qual me acompanha e me dá a honra de ser seu aparelho para trabalhos nos terreiros.

Quero dizer que o que falarei aqui não se trata de uma regra de como são os Exus desta linha, afinal de contas cada um desses guias tem a sua história e trabalham com o nome do Falangeiro que o doutrinou dentro da religião. O Seu Tata que trabalha comigo pode ser diferente daquele que trabalha com o leitor, que pode ser diferente daquele que trabalha com o amigo do leitor. Existem, sim, pontos em comum que falarei a respeito, mas esse texto específico será, como editei o texto agora e consegui perceber, um verdadeiro desabafo deste maravilhoso Guia.

Outro dia conversava com Seu Tata a respeito de como eu deveria agir em uma situação específica. Sua resposta foi bastante clara, como há muito ele não era (geralmente eu sou intuído, mas desta vez eu escutava de forma bastante clara como se ele estivesse ali). Ele me disse algo assim:
"Você me conhece há tempo o suficiente para saber que não vou te colocar neste ou naquele caminho. Você é inteligente para saber distinguir o certo do errado, então basta fazer isso e tomar a decisão certa". Sim, eu já sabia disso, mas mesmo assim queria uma dica, algo que pudesse me amparar. Foi então que tive uma lição de humildade e pude entender um pouco de sua história. As palavras dele me parecem ainda mais claras quando busco na memória recente:

"Seu conhecimento me parece estar minguando a cada dia. Nós dois somos trabalhadores da religião de Umbanda, com a única diferença que eu fui abraço pela Espiritualidade e, depois de muito penar, abracei de volta. E você? Você abraçou de verdade a Umbanda, ou gosta de falar que é umbandista? Se você tem o conhecimento do que deve e do que pode fazer dentro dos ensinamentos que teve, então faça. Se não tiver, quer dizer que seu desequilíbrio com Aquele que carrega na coroa está maior do que eu pensava. Se tem o conhecimento e não pratica, então te falta fé, e trabalhador da Espiritualidade sem fé, não é nada além de uma carcaça a prejudicar os outros. E digo prejudicar porque você só consegue dar aquilo que tem, então se alguém buscar conforto espiritual em você, não terá nada de volta além de mais dúvidas."

A resposta que eu tive foi quase um soco no estômago e me fez refletir muito a respeito de quem eu sou dentro da religião e o que posso ser. Baseado nisso, perguntei a Seu Tata se ele poderia me falar um pouco de sua história, não para que eu seguisse à risca (lógico que não), mas para que pudesse entender um pouco mais como se dá a evolução de um espírito (encarnado ou não) na Umbanda. Sua resposta foi:

"Você bem sabe que não gosto de contar histórias, porque na minha situação atual, onde eu carrego o nome de meu Mestre, remeter ao meu passado e contar isso para as pessoas pode me trazer de volta a vaidade que me fez cair. Eu vou te explicar algumas das partes principais de quem fui e como me desenvolvi, para que você perceba o como podemos ser iguais. Não entenda isso como minha história pessoal, mas como uma lição.

Quando encarnado cometi vários atos que eram errados sem sombra de dúvidas. Eu era inteligente, tinha conhecimento do que era certo e do que era errado, e por minha única vontade decidi fazer as coisas que eram erradas. Quando agimos de forma correta, damos um pequeno passo para frente; quando agimos de forma errada, corremos para trás. Minha caminhada errada me fez regredir muito, me tornando tudo aquilo que eu não poderia ser: pensava apenas em mim e não me importava em pisar nas outras pessoas, por qualquer motivo que fosse. Eu achava que era a pessoa mais importante que existia, e aquilo me colocava em uma posição onde eu precisava ser adorado pelos outros. Meu ego era cheio de volúpia enquanto vivo, e quando desencarnei percebi que ninguém chorava por mim, então meu coração se encheu de ódio.

Passei por incontáveis anos fazendo o mal pela simples vontade de fazer. Ao contrário do que muitos contam, existem espíritos obsessores que trabalham sozinhos e não recebem nada em troca, além da angústia das outras pessoas. Em determinado momento fui resgatado por aquele que se tornaria meu Mestre. Se passei décadas praticando maldade, passei muitas outras mais aprendendo que aquilo era errado e sendo doutrinado para trabalhar visando reverter tudo aquilo de errado que tinha feito antes. Quando pude aprender o suficiente para trabalhar na Umbanda, aprendi minha última e maior lição: meu Mestre Falangeiro, que havia me curado a alma, tirou qualquer resquício de vaidade ao me tirar a pele, os músculos e os órgãos. A partir daquele instante eu seria Caveira como ele se apresentava, porque todos temos nossas caveiras no corpo, portanto seria minha aparência esquelética o símbolo de que não há distinção física alguma entre os seres, e o que importa é a evolução de cada um.

Quero que você entenda que quando você sabe que algo é errado e mesmo assim faz aquilo, está andando para trás; está se tornando uma pessoa má, e tudo aquilo que você fizer nesta vida vai te acompanhar para sempre. Você não sabe o dia que vai desencarnar, então não deve ficar com esta sua mania de achar que dará tempo para arrumar tudo aquilo de errado que fez. Pode ser que não dê, e se isso acontecer o que você vai fazer a respeito? Chorar a oportunidade que perdeu? Se tornar um dos obsessores que tanto nos dá trabalho? Eu só conheci a Umbanda depois de muito tempo após desencarnar, mas você não. Você tem a oportunidade de seguir um caminho muito melhor do que eu segui, sabendo de coisas que eu não sabia e tendo instrumentos para melhorar que eu não tive. Então abrace a Umbanda como eu fiz. Não faça isso da boca para fora, porque falar que é umbandista é fácil. Haja como umbandista."

Sabe quando você fica atônito por um bom tempo, completamente sem reação? Pois bem, eu fiquei desta forma. Passei alguns dias assimilando tudo o que foi dito e decidi rever alguns posicionamentos em relação a coisas que eu fazia de uma forma automática, incluindo a minha atuação dentro do terreiro que trabalhava. Existiam situações que não cabem aqui expor, mas que não eram de meu agrado. Eu sempre consegui ter o entendimento que os terreiros de Umbanda são diferentes um do outro e sei que não existe um certo e um errado (religião não é matemática), mas sempre tive um olhar crítico em demasia quando algo acontece de uma forma que eu não concordava ou que eu tinha aprendido de forma diferente. Eu decidi perguntar a Seu Tata o que ele entendia sobre esse assunto. Não pedi orientação, apenas sua opinião:

A forma certa de girar em um terreiro de Umbanda é se melhorar a cada trabalho feito. Quando a assistência está cheia de pessoas, quer dizer que o terreiro é bom, que ajudou alguém que convidou outra pessoa. Se você acha que consegue fazer melhor que quem dirige a casa, então abra um terreiro para comandar. Mas faça isso sabendo que para alguém a forma que você vai decidir o que será feito e a forma como será feito estará errada. Eu vou te acompanhar sempre em todos os lugares que você for porque me foi dada a incumbência de te ajudar em sua evolução da mesma forma que você me ajuda, mas a partir do momento que você fizer algo que eu considere errado dentro de um terreiro que decida tomar a frente, farei você aprender da pior maneira o que é humildade, e ser humilde passa por aprender com aqueles que vieram antes de você. Se não te couber, aceite a diferença, não diga e nem pense que está errado. Se fizer isso, quer dizer que tem um remédio que não existe para uma doença que ninguém sabe qual é. Você precisa entender que não é melhor e nem pior que qualquer pessoa.

Se uma casa não te agrada, peça o afastamento como tem que ser: respeitando quem está à frente e todos os trabalhadores. Procure uma casa que te agrade por completo e quando não encontrar, volte humildemente pedindo perdão.

Essas conversas me mostram como sou pequeno diante a Espiritualidade e o como ainda temos todos que evoluir para termos o entendimento que esses Guias de Luz possuem. Agradeço sempre pela oportunidade de ser amparado por todos esses Guias maravilhosos, em especial Seu Tata Caveira, que me ajuda muito em tudo, inclusive quando me dá esse tipo de bronca (aliás, acho que me ajuda mais ainda quando “come meu toco”).

Falado um pouco sobre a história pessoal entre Seu Tata e eu, vamos explicar como atua a linha dos Caveira num geral. Primeiramente precisamos esclarecer que a Linha dos Caveira, como são conhecidos os Exus de Cemitério (ou Calunga Pequena), é formada por alguns poucos falangeiros (lembram quem são, né?) que atuam rigorosamente da mesma forma. A razão de existir mais de um falangeiro é porque esses indivíduos que aceitaram a missão de trabalharem na Umbanda foram evoluindo e tiveram afinidade com Obaluaiê, o Orixá que atua justamente na Calunga Pequena. Creio que com o passar dos anos novas falanges na Linha dos Caveiras surgirão para nos auxiliar na Umbanda.

Não consigo dizer ao certo quais são todos os falangeiros na Linha dos Caveiras, mas certamente os mais conhecidos são: Exu Caveira (o primeiro falangeiro desta Linha a se manifestar), João Caveira, Sete Caveiras e Tata Caveira. Existem outros guias do Cemitério, mas não são da Linha dos Caveira (Exu Sete Catacumbas, por exemplo).

Já vimos que Tata Caveira é regido por Obaluaiê, então de uma forma natural uma de suas principais funções é atuar no afastamento de doenças e males espirituais que possam somatizar na pessoa e causar algum dano físico. Tendo essa missão de atuar na parte espiritual revertendo ataques de espíritos obsessores que possam causar algum tipo de doença, a Tata Caveira foi dado o conhecimento para entender e manipular qualquer tipo de magia (seja de alta ou de baixa vibração). Esse conhecimento transformou Tata Caveira em um verdadeiro Mestre da Magia, sendo uma das poucas linhas da Umbanda a conseguir desfazer sozinha trabalhos de magia com o uso de sacrifícios para os kiumbas.

Sabido de sua missão, é muito raro encontrar algum Guia que atua na linha de Seu Tata Caveira que fala muito a respeito do que faz, ou que se vangloria de seus feitos, isso porque o falangeiro Tata Caveira exige humildade de seus subordinados, pois sabe que o ego é traiçoeiro e pode derrubar quem quer que seja, inclusive algum Guia de Luz.

Gostou de conhecer Sr.Exu Tata Caveira? Bacana né? Vou ensinar abaixo como arriar uma oferenda de AGRADECIMENTO (não peçam nada) para este guia maravilhoso:

Vocês precisarão de:

1 Alguidar (médio ou grande)
Farinha de milho branco
Farinha de milho amarelo
1 cebola roxa
7 pimentas vermelhas
3 bifes de fígado
Azeite de dendê
1 garrafa de cachaça
3 velas pretas
3 velas brancas
1 vela cruzada preta e vermelha
3 charutos

  • No alguidar coloque primeiro a farinha branca e regue com bastante cachaça. Misture com as mãos, colocando todas as suas boas vibrações naquele ato.
  • Repita com a farinha amarela.
  • Coloque as duas farinhas no alguidar, dividindo um lado a branca e do outro lado a amarela.
  • Frite no azeite de dendê os bifes (não muito, apenas para não sair mais sangue) e distribua em cima das farinhas.
  • Corte a cebola em 7 rodelas e distribua uniformemente sob a farinha e os bifes.
  • Enfeite com as pimentas.
  • Regue o padê com uma boa quantidade de cachaça e depois com o dendê.
  • No lado de fora do alguidar coloque a garrafa de cachaça
  • Firme as velas, colocando na parte de cima a vela cruzada e de um lado as velas pretas e de outro as brancas.
  • Acenda os charutos e para cada um deles, dê 7 baforadas no padê, pedindo que Seu Tata receba aquela oferenda de bom grado. Coloque os charutos ou na frente do alguidar (do lado de fora) ou de uma forma bonita e harmoniosa dentro do alguidar (com o lado da chama para fora).


Faça isso com muita FÉ e GRATIDÃO a Tata Caveira, nosso amado Guardião.

Obs: se você já tiver uma boa firmeza, peça orientação a seu sacerdote para arriar no cemitério. Se não, eu aconselho a fazer esta firmeza no terreiro mesmo.

Ninguém é tão bom que incorpore Jesus Cristo e nem tão ruim que incorpore o Diabo” – Tata Caveira.

3 comentários: