quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Tata Caveira


TATA CAVEIRA

Eu respeito todas as entidades que trabalham na Umbanda da mesma forma. Acredito que todas são maravilhosas e se prestam à Caridade, então por si só isso já me trona uma fã de carteirinha de nossa religião e dos trabalhadores que a sustentam. Existem, porém, alguns guias que tenho maior afinidade e, por isso, acabo me inteirando mais de suas histórias e conhecendo sua forma de pensar e agir dentro da religião. Certamente uma dessas entidades é o Exu Tata Caveira, o qual me acompanha e me dá a honra de ser seu aparelho para trabalhos nos terreiros.

Quero dizer que o que falarei aqui não se trata de uma regra de como são os Exus desta linha, afinal de contas cada um desses guias tem a sua história e trabalham com o nome do Falangeiro que o doutrinou dentro da religião. O Seu Tata que trabalha comigo pode ser diferente daquele que trabalha com o leitor, que pode ser diferente daquele que trabalha com o amigo do leitor. Existem, sim, pontos em comum que falarei a respeito, mas esse texto específico será, como editei o texto agora e consegui perceber, um verdadeiro desabafo deste maravilhoso Guia.

Outro dia conversava com Seu Tata a respeito de como eu deveria agir em uma situação específica. Sua resposta foi bastante clara, como há muito ele não era (geralmente eu sou intuído, mas desta vez eu escutava de forma bastante clara como se ele estivesse ali). Ele me disse algo assim:
"Você me conhece há tempo o suficiente para saber que não vou te colocar neste ou naquele caminho. Você é inteligente para saber distinguir o certo do errado, então basta fazer isso e tomar a decisão certa". Sim, eu já sabia disso, mas mesmo assim queria uma dica, algo que pudesse me amparar. Foi então que tive uma lição de humildade e pude entender um pouco de sua história. As palavras dele me parecem ainda mais claras quando busco na memória recente:

"Seu conhecimento me parece estar minguando a cada dia. Nós dois somos trabalhadores da religião de Umbanda, com a única diferença que eu fui abraço pela Espiritualidade e, depois de muito penar, abracei de volta. E você? Você abraçou de verdade a Umbanda, ou gosta de falar que é umbandista? Se você tem o conhecimento do que deve e do que pode fazer dentro dos ensinamentos que teve, então faça. Se não tiver, quer dizer que seu desequilíbrio com Aquele que carrega na coroa está maior do que eu pensava. Se tem o conhecimento e não pratica, então te falta fé, e trabalhador da Espiritualidade sem fé, não é nada além de uma carcaça a prejudicar os outros. E digo prejudicar porque você só consegue dar aquilo que tem, então se alguém buscar conforto espiritual em você, não terá nada de volta além de mais dúvidas."

A resposta que eu tive foi quase um soco no estômago e me fez refletir muito a respeito de quem eu sou dentro da religião e o que posso ser. Baseado nisso, perguntei a Seu Tata se ele poderia me falar um pouco de sua história, não para que eu seguisse à risca (lógico que não), mas para que pudesse entender um pouco mais como se dá a evolução de um espírito (encarnado ou não) na Umbanda. Sua resposta foi:

"Você bem sabe que não gosto de contar histórias, porque na minha situação atual, onde eu carrego o nome de meu Mestre, remeter ao meu passado e contar isso para as pessoas pode me trazer de volta a vaidade que me fez cair. Eu vou te explicar algumas das partes principais de quem fui e como me desenvolvi, para que você perceba o como podemos ser iguais. Não entenda isso como minha história pessoal, mas como uma lição.

Quando encarnado cometi vários atos que eram errados sem sombra de dúvidas. Eu era inteligente, tinha conhecimento do que era certo e do que era errado, e por minha única vontade decidi fazer as coisas que eram erradas. Quando agimos de forma correta, damos um pequeno passo para frente; quando agimos de forma errada, corremos para trás. Minha caminhada errada me fez regredir muito, me tornando tudo aquilo que eu não poderia ser: pensava apenas em mim e não me importava em pisar nas outras pessoas, por qualquer motivo que fosse. Eu achava que era a pessoa mais importante que existia, e aquilo me colocava em uma posição onde eu precisava ser adorado pelos outros. Meu ego era cheio de volúpia enquanto vivo, e quando desencarnei percebi que ninguém chorava por mim, então meu coração se encheu de ódio.

Passei por incontáveis anos fazendo o mal pela simples vontade de fazer. Ao contrário do que muitos contam, existem espíritos obsessores que trabalham sozinhos e não recebem nada em troca, além da angústia das outras pessoas. Em determinado momento fui resgatado por aquele que se tornaria meu Mestre. Se passei décadas praticando maldade, passei muitas outras mais aprendendo que aquilo era errado e sendo doutrinado para trabalhar visando reverter tudo aquilo de errado que tinha feito antes. Quando pude aprender o suficiente para trabalhar na Umbanda, aprendi minha última e maior lição: meu Mestre Falangeiro, que havia me curado a alma, tirou qualquer resquício de vaidade ao me tirar a pele, os músculos e os órgãos. A partir daquele instante eu seria Caveira como ele se apresentava, porque todos temos nossas caveiras no corpo, portanto seria minha aparência esquelética o símbolo de que não há distinção física alguma entre os seres, e o que importa é a evolução de cada um.

Quero que você entenda que quando você sabe que algo é errado e mesmo assim faz aquilo, está andando para trás; está se tornando uma pessoa má, e tudo aquilo que você fizer nesta vida vai te acompanhar para sempre. Você não sabe o dia que vai desencarnar, então não deve ficar com esta sua mania de achar que dará tempo para arrumar tudo aquilo de errado que fez. Pode ser que não dê, e se isso acontecer o que você vai fazer a respeito? Chorar a oportunidade que perdeu? Se tornar um dos obsessores que tanto nos dá trabalho? Eu só conheci a Umbanda depois de muito tempo após desencarnar, mas você não. Você tem a oportunidade de seguir um caminho muito melhor do que eu segui, sabendo de coisas que eu não sabia e tendo instrumentos para melhorar que eu não tive. Então abrace a Umbanda como eu fiz. Não faça isso da boca para fora, porque falar que é umbandista é fácil. Haja como umbandista."

Sabe quando você fica atônito por um bom tempo, completamente sem reação? Pois bem, eu fiquei desta forma. Passei alguns dias assimilando tudo o que foi dito e decidi rever alguns posicionamentos em relação a coisas que eu fazia de uma forma automática, incluindo a minha atuação dentro do terreiro que trabalhava. Existiam situações que não cabem aqui expor, mas que não eram de meu agrado. Eu sempre consegui ter o entendimento que os terreiros de Umbanda são diferentes um do outro e sei que não existe um certo e um errado (religião não é matemática), mas sempre tive um olhar crítico em demasia quando algo acontece de uma forma que eu não concordava ou que eu tinha aprendido de forma diferente. Eu decidi perguntar a Seu Tata o que ele entendia sobre esse assunto. Não pedi orientação, apenas sua opinião:

A forma certa de girar em um terreiro de Umbanda é se melhorar a cada trabalho feito. Quando a assistência está cheia de pessoas, quer dizer que o terreiro é bom, que ajudou alguém que convidou outra pessoa. Se você acha que consegue fazer melhor que quem dirige a casa, então abra um terreiro para comandar. Mas faça isso sabendo que para alguém a forma que você vai decidir o que será feito e a forma como será feito estará errada. Eu vou te acompanhar sempre em todos os lugares que você for porque me foi dada a incumbência de te ajudar em sua evolução da mesma forma que você me ajuda, mas a partir do momento que você fizer algo que eu considere errado dentro de um terreiro que decida tomar a frente, farei você aprender da pior maneira o que é humildade, e ser humilde passa por aprender com aqueles que vieram antes de você. Se não te couber, aceite a diferença, não diga e nem pense que está errado. Se fizer isso, quer dizer que tem um remédio que não existe para uma doença que ninguém sabe qual é. Você precisa entender que não é melhor e nem pior que qualquer pessoa.

Se uma casa não te agrada, peça o afastamento como tem que ser: respeitando quem está à frente e todos os trabalhadores. Procure uma casa que te agrade por completo e quando não encontrar, volte humildemente pedindo perdão.

Essas conversas me mostram como sou pequeno diante a Espiritualidade e o como ainda temos todos que evoluir para termos o entendimento que esses Guias de Luz possuem. Agradeço sempre pela oportunidade de ser amparado por todos esses Guias maravilhosos, em especial Seu Tata Caveira, que me ajuda muito em tudo, inclusive quando me dá esse tipo de bronca (aliás, acho que me ajuda mais ainda quando “come meu toco”).

Falado um pouco sobre a história pessoal entre Seu Tata e eu, vamos explicar como atua a linha dos Caveira num geral. Primeiramente precisamos esclarecer que a Linha dos Caveira, como são conhecidos os Exus de Cemitério (ou Calunga Pequena), é formada por alguns poucos falangeiros (lembram quem são, né?) que atuam rigorosamente da mesma forma. A razão de existir mais de um falangeiro é porque esses indivíduos que aceitaram a missão de trabalharem na Umbanda foram evoluindo e tiveram afinidade com Obaluaiê, o Orixá que atua justamente na Calunga Pequena. Creio que com o passar dos anos novas falanges na Linha dos Caveiras surgirão para nos auxiliar na Umbanda.

Não consigo dizer ao certo quais são todos os falangeiros na Linha dos Caveiras, mas certamente os mais conhecidos são: Exu Caveira (o primeiro falangeiro desta Linha a se manifestar), João Caveira, Sete Caveiras e Tata Caveira. Existem outros guias do Cemitério, mas não são da Linha dos Caveira (Exu Sete Catacumbas, por exemplo).

Já vimos que Tata Caveira é regido por Obaluaiê, então de uma forma natural uma de suas principais funções é atuar no afastamento de doenças e males espirituais que possam somatizar na pessoa e causar algum dano físico. Tendo essa missão de atuar na parte espiritual revertendo ataques de espíritos obsessores que possam causar algum tipo de doença, a Tata Caveira foi dado o conhecimento para entender e manipular qualquer tipo de magia (seja de alta ou de baixa vibração). Esse conhecimento transformou Tata Caveira em um verdadeiro Mestre da Magia, sendo uma das poucas linhas da Umbanda a conseguir desfazer sozinha trabalhos de magia com o uso de sacrifícios para os kiumbas.

Sabido de sua missão, é muito raro encontrar algum Guia que atua na linha de Seu Tata Caveira que fala muito a respeito do que faz, ou que se vangloria de seus feitos, isso porque o falangeiro Tata Caveira exige humildade de seus subordinados, pois sabe que o ego é traiçoeiro e pode derrubar quem quer que seja, inclusive algum Guia de Luz.

Gostou de conhecer Sr.Exu Tata Caveira? Bacana né? Vou ensinar abaixo como arriar uma oferenda de AGRADECIMENTO (não peçam nada) para este guia maravilhoso:

Vocês precisarão de:

1 Alguidar (médio ou grande)
Farinha de milho branco
Farinha de milho amarelo
1 cebola roxa
7 pimentas vermelhas
3 bifes de fígado
Azeite de dendê
1 garrafa de cachaça
3 velas pretas
3 velas brancas
1 vela cruzada preta e vermelha
3 charutos

  • No alguidar coloque primeiro a farinha branca e regue com bastante cachaça. Misture com as mãos, colocando todas as suas boas vibrações naquele ato.
  • Repita com a farinha amarela.
  • Coloque as duas farinhas no alguidar, dividindo um lado a branca e do outro lado a amarela.
  • Frite no azeite de dendê os bifes (não muito, apenas para não sair mais sangue) e distribua em cima das farinhas.
  • Corte a cebola em 7 rodelas e distribua uniformemente sob a farinha e os bifes.
  • Enfeite com as pimentas.
  • Regue o padê com uma boa quantidade de cachaça e depois com o dendê.
  • No lado de fora do alguidar coloque a garrafa de cachaça
  • Firme as velas, colocando na parte de cima a vela cruzada e de um lado as velas pretas e de outro as brancas.
  • Acenda os charutos e para cada um deles, dê 7 baforadas no padê, pedindo que Seu Tata receba aquela oferenda de bom grado. Coloque os charutos ou na frente do alguidar (do lado de fora) ou de uma forma bonita e harmoniosa dentro do alguidar (com o lado da chama para fora).


Faça isso com muita FÉ e GRATIDÃO a Tata Caveira, nosso amado Guardião.

Obs: se você já tiver uma boa firmeza, peça orientação a seu sacerdote para arriar no cemitério. Se não, eu aconselho a fazer esta firmeza no terreiro mesmo.

Ninguém é tão bom que incorpore Jesus Cristo e nem tão ruim que incorpore o Diabo” – Tata Caveira.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Miasmas e Larvas Astrais


Ontem no terreiro que trabalho tivemos uma aula muito interessante de nossa irmã Nelma (que, aliás, merece todas as reverências pelo seu maravilhoso trabalho de levar o ensinamento de forma caridosa a quem precisa) sobre miasmas e larvas astrais. Eu conhecia pouca coisa e achava, sinceramente, que era tudo igual. Para mim miasma e larva eram sujeiras que ficam no astral, mas descobri que é bem mais que isso.

A escritora Rhonda Byrne ficou famosa pelo seu livro O Segredo, onde ajuda a descrever alguns conceitos que quem é umbandista já deveria saber faz tempo: somos feitos de energia e emanamos energia o tempo todo através de nossos pensamentos e atitudes; e tudo aquilo que jogamos para o universo, volta para nós de alguma forma. Se temos bons pensamentos e bons sentimentos na vida, recebemos de volta na mesma medida. Se nossos pensamentos e sentimentos são ruins, pesados, então o que receberemos de volta algo parecido. Seria uma espécie de Lei do Retorno associada de forma direta com as consequências que devemos ter para nosso crescimento enquanto indivíduos baseados no Livre Arbítrio.

Se tudo que existe, incluindo nós mesmos, é composto de energia, então tudo aquilo que pensamos volta para nós não apenas como uma mera consequência do carma que geramos (exemplo: quem um dia bate outro dia vai apanhar), mas também como energia negativa ou positiva, e essa energia acaba nos cercando e de certa forma impregnando em nossa aura.

Na medicina, quando há alguma sujeira no corpo da pessoa, é utilizado o termo miasma. A espiritualidade emprestou este termo e determinou que tudo aquilo que forma algum tipo de marca em nossa aura, seja ruim ou até mesmo boa, é considerado um miasma. Quando esse miasma, formado por energias geradas através de pensamentos negativos, fica impregnado em uma pessoa, é denominado miasma deletério (que é o que, por padrão, chamamos de miasma negativo).

Segundo Sthefany Nolasco, especialista no assunto, os miasmas são uma espécie de “plastificação” de nossos atos e pensamentos, tendo a capacidade de grudar em tudo que nos cerca, além de nós mesmo. Quando uma pessoa está com grande quantidade de miasma deletério a seu redor, é bastante comum que aquela energia negativa acabe somatizando e se transforme em sintomas de doenças que a pessoa sequer tem. Dores de cabeça, peso nas costas, incômodo estomacal, etc, podem ser consequência de uma concentração grande de energia de baixa vibração. A contrapartida é verdadeira, então ao ponto que dores podem ocorrer, é fato que alguém que se cerca de energia positiva consegue sentir em seu corpo as boas consequências de seus pensamentos, ficando mais leve e conseguindo afastar de si os sintomas de desconforto causados por pensamentos negativos de outras pessoas.

Existe uma situação que acaba sendo bastante perigosa, que é quando em algum ambiente fechado (casa, escola, trabalho, carro, etc) o acúmulo de energia negativa é tão grande que os miasmas ficam impregnados de tal forma nas paredes que acabam gerando aquilo que chamamos de larvas espirituais (ou astrais), que nada mais são do que seres asquerosos sem qualquer tipo de pensamento, que existem apenas para propagar aquele tipo de pensamento de baixa vibração.

Essas larvas ficam grudadas nas paredes, móveis e tudo mais que existe em um ambiente e elas agem de forma parasitária, se nutrindo das energias negativas existentes e, para piorar a situação, provocam incômodos nas pessoas que estão naquele ambiente que, invariavelmente, por conta deste incômodo acabam brigando ou entrando em situações negativas e gerando ainda mais energia de baixa vibração, o que alimenta essas larvas e faz com que elas se propaguem cada vez mais. Ou seja, ter larva espiritual em um ambiente á muito complicado e gera uma série de problemas de difícil solução.

Como o próprio nome diz, esses seres têm a aparência de larvas nas cores verde musgo (bem escuto) e uma cor avermelhada escura, parecendo sangue pisado. Além disso, em casos muito específicos, quando o ambiente tem o acúmulo dessas larvas por um grande período de tempo, sendo alimentadas, existe uma espécie de eclosão e elas tomam aparências distintas, geralmente seres bestiais. Esses seres estão vinculados a algum tipo específico de energia negativa liberada pelas pessoas e acompanham as pessoas nesses atos. Vamos a alguns exemplos:

Dragões surgem em ambientes ligados à luxúria, tais como prostíbulos e bordéis. Esses seres são criados pelos pensamentos das pessoas que frequentam e o mal que causam é o vício na luxúria, causando uma espécie de vício nas pessoas que são sugestionáveis.

Os Íncubus e Súcubos são um caso interessante, pois são uma espécie de simbiose entre espíritos desencarnados que possuíam compulsão pelo sexo e ainda não conseguiram se livrar dele, junto as larvas astrais. Esta junção cria o Íncubus, que acompanha a mulher e o Súcubos que acompanha o homem. A presença desses seres é extremamente perigosa pois ela existe única e exclusivamente para acompanhar as pessoas durante a relação sexual, se alimentando daquela energia e gerando uma compulsão cada vez maior pelo sexo, de forma indiscriminada, o que pode acarretar em promiscuidade e o fim de relacionamentos.

Vale ressaltar que não é porque alguém é promíscuo (ou seja, tem mais de um parceiro sexual ao mesmo tempo, sem o consentimento do outro) que está com um íncubus ou súcubos. Na maioria dos casos é falta de caráter mesmo.

Os Fantasmatas são circulam os cemitérios e são criados pela concentração de energia negativa que acompanham as pessoas que enterram seus parentes, amigos, etc. Claramente os sentimentos naquele momento são ruins e geram uma energia pesada. Como não existe outra energia trazida pela maioria dos encarnados em um cemitério, além da dor pela perda, a presença dos fantasmatas é bastante comum.

Esses seres tendem a acompanhar durante um tempo pessoas receptivas a aquele sentimento, mas retornam ao cemitério pois ali terão a certeza de serem alimentados pelas energias de baixa vibração contidas nos pensamentos daqueles que enterram seus entes.

Sabe aquela frase antiga que diz “fulano está com Encosto”? Pois bem, esse tipo de ser existe e é gerado quando um sentimento de inveja de uma pessoa para outra é contínuo e dura algum tempo. As larvas astrais se juntam e nasce um ser completamente desforme que acompanha o alvo da pessoa invejosa. O interessante sobre este ser é que quando ele é destruído, acaba voltando para a pessoa que o gerou (ou seja, o invejoso). Então quando dissemos que todo sentimento de inveja que vai, volta, é realmente verdade.

Mas o que fazer se você está com miasma deletério e, pior ainda, cercado dessas larvas astrais? Está tudo perdido? Claro que não. Para rigorosamente todo problema há uma solução, e neste caso são várias, as quais elenco para reflexão dos amigos leitores:

Bons Pensamentos: se os maus pensamentos geram os miasmas deletérios, os bons pensamentos geram os miasmas positivos. Quando no começo, se um miasma deletério for criado por alguma situação pontual existente, um pensamento positivo de verdade, vindo do coração, pode acabar com aquela energia negativa e transmuta-la em positiva.
Reforma Íntima: esse assunto é muito mais complicado do que parece, e merece uma análise bem mais aprofundada, mas basicamente fazer um exercício diários e constante em melhorar tudo aquilo que você pensa e faz, vai gerar a tal reforma íntima, que só existirá se for algo realmente feito de coração, não apenas da boca para fora.

Evitar Situações Negativas: eu sei que essa parte já é bem mais complicada, pois muitas vezes somos colocados em situações que geram algum tipo de negatividade, mesmo não querendo. O que podemos fazer, no entanto, é sempre manter os pensamentos em alta vibração, ou seja, focado em coisas boas. Tentar não focar no problema, mas buscar uma solução que seja harmoniosa.

Eu particularmente adoro uma cerveja gelada em um boteco sexta de noite, mas o ideal mesmo é evitar qualquer tipo de lugar que tenha acúmulo de energias negativas, e os bares invariavelmente são assim. Nós umbandistas, após irmos a algum bar ou similar, devemos tomar banho de descarrego para nos limpar daquelas energias. E, claro, é sempre bom lembrar que não devemos abusar do álcool, cigarro e semelhantes. Como diz nossa professora Nelma “quando bebemos, não bebemos sozinhos”.

Rituais de Limpeza de Ambiente e Pessoal: esqueceu de fazer tudo isso ou já estava infestado de energia negativa? Então é o caso de providenciar uma limpeza não apenas em você (através dos banhos de descarrego e proteção), mas principalmente nos lugares onde há a presença das larvas.

Banhos

Vou citar os mais simples, mas é sempre bom lembrar que existe uma infinidade de outras combinações de ervas que podem gerar um efeito diferente e até melhor. Como não sei das condições de todos os amigos leitores, vou usar os mais simples e conhecidos.

Banho de sal grosso: 2 litros de água e 7 colheres de sopa de sal grosso.

Basta ferver a água por 2 minutos e tirar o excesso de sal (as pedras que não derreteram). Espere esfriar ao ponto de não queimar sua pele e, após tomar um banho normal, jogue o banho de sal grosso do ombro para baixo.

Eu aprendi com alguns guias espirituais e reforcei com o mestre Erveiro Adriano Camargo que devemos esperar algum tempo até o banho fazer efeito (cerca de 10 respiradas profundas) e depois podemos tomar outro banho, porque muitas vezes a presença do sal após secar incomoda bastante. Se você vai tomar ou não outro banho, aí é decisão de cada um. Eu particularmente tomo e me sinto bem do mesmo jeito.

Banho de proteção: o sal grosso não protege, ele apenas descarrega as energias que estão com a pessoa, promovendo uma limpeza. Se o banho de sal grosso for tomado pela manhã, então na tarde do mesmo dia a pessoa pode tomar o banho de proteção. Se o banho com sal grosso foi tomado de noite, a pessoa poderá tomar o banho de ervas na manhã seguinte.

Para esse banho, precisamos de ervas quentes que, inclusive, são direcionadas para a limpeza de sujeiras causadas por miasmas e larvas astrais. As ervas são:

Guiné (é uma erva que tem a propriedade de cortar qualquer tipo de ligação negativa, então a energia emanada da guiné dificulta que energias negativas acoplem na pessoa);
Arruda (talvez a mais conhecida erva de proteção que existe, é sempre eficaz num banho de defesa);
Eucalipto, Quebra Demanda ou Pinhão Roxo (são ervas de proteção e ajudam na sustentação do trabalho das demais);
Casca de Alho (além de ser uma erva de proteção e descarrego de energias negativas, também promove o afastamento de energias negativas geradas por espíritos obsessores que eventualmente tenham afinidade energética com o ambiente carregado);
Cânfora (é uma conhecida erva de cura que misturada com as demais, tem a função de alinhar a energia da pessoa que eventualmente tenha se desgastado devido aos miasmas deletérios ou larvas astrais).

A pessoa deve macerar as ervas em água morna, rezando e pedindo proteção. O banho pode ser feito da cabeça aos pés, seguindo a mesma ritualística do banho de sal grosso (tomar um banho normal antes e outro depois, se assim quiser).

A partir de agora você estará limpinho, bastando manter uma vida regrada e cheio de Deus no coração. Mas, contudo, no entanto, todavia vocês vão falar “Sergio, e minha casa cheia de larvas?”. Eu respondo: vamos defumar!

É basicamente isso mesmo. A pessoa estando limpa e com a mente serena, focada em sua mudança, deve realizar a limpeza do ambiente, que no caso de nós, umbandistas, está na defumação.

Eu aprendi com o amado Caboclo Jaguara e com Seu Tempestade que toda erva utilizada em banho pode ser usada em defumação, mas não o contrário. Sendo assim, defumar o ambiente com as mesmas ervas utilizadas no banho (o mesmo tipo, por favor não usem literalmente a mesma erva molhada heim) é uma solução fácil para esses casos.

A defumação deve sempre ser feita da parte de trás para a frente da casa e de dentro para fora, com orações de limpeza ou pontos de defumação. Esta defumação pode ser feita dia sim dia não, até que o clima no lugar melhore (acredite, a diferença é bem grande).

Quando o ambiente está muito mais pesado que o normal, a defumação pode demorar mais para fazer efeito, então nesses casos é recomendado um dos rituais mais antigos da Umbanda, que é o bate folhas.

O bate folhas foi introduzido em nossa religião pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, o qual amarrava uma quantidade de ervas específicas e “batia” levemente com essas ervas no consulente, promovendo sua limpeza. Com o passar do tempo, os médiuns aprenderam como consagrar aquelas ervas e as utilizam para limpeza de ambientes.

Quando se faz necessária a utilização de um bate folhas em casa, é fato que a situação é mais grave do que as cotidianas, então podemos e devemos utilizar todo o conhecimento adquirido para tal, sendo que por diversas vezes o médium que realiza o bate folhas na casa de alguém, recebe a energia de algum guia para que o acompanhe. Esta energia em boa parte dos casos decorre da aproximação de um Exu, o qual tem condições de manipular toda e qualquer erva consagrada para utilização na Umbanda.

Se a pessoa que fizer o bate folhas não souber se terá a companhia ou não de Exu, então é aconselhado fazer um ramo com as seguintes ervas: arruda, guiné, quebra demanda, pinhão roxo, eucalipto e manjericão (a única das ervas mornas, utilizada para regeneração do ambiente).
Se o médium que fizer o bate folhas tiver conhecimento que será acompanhado por Exu, então pode utilizar as seguintes ervas:

Amoreira: a folha desta árvore tem a característica de armazenar as energias durante o dia e no final da tarde descarregar. O uso desta erva, portanto, é bastante eficaz mas tem que ser feito de forma consciente, pois se se o chumaço de folhas não for descarregado da forma correta, pode trazer de volta as energias negativas;

Aroeira: além de descarregar, tem a função de atuar especificamente em questões de compulsão sexual, portanto é recomendado seu uso quando tiver a presença de íncubus e súcubos, ou em rituais feitos em locais onde exista ou existiu atividade sexual constante e desregrada (bordéis, por exemplo).

Arrebenta Cavalo: tem função parecida com a aroeira, porém em menor escala. Sua principal característica neste ritual é a de fixar a energia das demais ervas por maior tempo no ambiente;

Arruda: olha ela aí de novo. Arruda também é erva de Exu e serve como ótimo descarrego;

Bardana: não é fácil ser encontrada, mas quando utilizada no bate folhas, além de ajudar no descarrego do ambiente, ajuda na proteção do médium, evitando que ele receba alguma carga energética negativa;

Cana de Açúcar: consagrada a Iansã e Exu, é uma erva com fortíssimo poder de descarrego de ambiente, inclusive quando existe a presença de obsessores;

Cardo Santo: deve ser utilizado em rituais onde existam a presença de animais;

Fedegoso (ou Crista de Galo): além de descarregar e proteger, esta erva tem a propriedade de energizar o ambiente e quebrando especificamente larvas que atentam contra a saúde das pessoas;

Mamona: uma das mais conhecidas e fortes ervas consagradas a Exu, não pode faltar num bom bate folhas;

Mangueira: fácil de ser encontrada, as folhas da mangueira limpam e protegem;

Pinhão Roxo: também comum de ser encontrada, serve como descarrego de ambiente.

Essas são as ervas que podem ser utilizadas em um ritual de bate folhas com Exu, porém vale lembrar que o ritual pode ser feito com pelo menos três dessas ervas, não necessitando todas elas.

Gostaram do assunto? Eu particularmente achei muito legal e vou estudar mais a respeito, sempre tendo em mente que preciso mudar e ser uma pessoa melhor a cada dia.

Axé

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Papa Francisco é Umbandista

PORQUE O PAPA FRANCISCO É MAIS UMBANDISTA QUE MUITA GENTE?


Tá bom, eu concordo que o título é meio exagerado, mas eu quis chamar a atenção mesmo para o Papa Francisco e suas atitudes enquanto pessoa e, principalmente, como líder religioso. Recentemente assisti a um vídeo gravado em 2018 onde o Papa Francisco pediu para parar o tal “papamóvel” (ok, isso ainda é muito Batman para mim) e, de forma espontânea, desceu em meio aos fiéis para benzer e abraçar uma senhora cega de 99 que segurava uma faixa pedindo um abraço do pontífice. Me recordo que vi alguma situação parecida envolvendo o Papa na Itália, quando ele parou para cumprimentar um pequeno grupo de fiéis, além de benzer um cadeirante.

Eu não sou uma pessoa que gosta de ações populistas, então tenho um pé atrás quando vejo algo que é muito escancarado; sinto que parece algo forçado para vender uma imagem. Dito isso, vale a pena pesar que não se trata de um Deputado ou um Vereador segurando um bebê no colo ou comendo buchada de bode durantes as eleições, mas algo feito pela maior pessoa dentro de uma religião, o qual só sairá daquela posição se tiver essa vontade (como ocorreu com o Papa Bento XVI) ou quando desencarnar. Ou seja, Papa Francisco não ganha nada se expondo desta forma. Essa condição o torna alguém que, até que se prove o contrário, não deve haver qualquer tipo de dúvida em relação a como age e se comporta. 

Mas porque então ele é um umbandista? Aconteceu alguma reviravolta e caiu dendê em sua batina? Não, essa metáfora está calçada nas atitudes do Papa em comunhão com os conceitos e ensinamentos básicos de nossa religião: amor ao próximo, sabedoria para conseguir evoluir, respeito às diferenças e, acima de tudo, caridade. Eu resolvi elencar alguns de seus feitos e comparar com os pilares umbandistas:

Seus Discursos e Posicionamentos Contra Gastos Superficiais da Igreja Católica: não é novidade para ninguém que a Igreja Católica desde sempre esbanja riqueza em tudo. A Capela Sistina, localizada no Vaticano, tem tanta obra de arte e tanto ouro e pedras preciosas, que seu valor é considerado incalculável. Logo no início de seu pontificado, Papa Francisco se colocou contra os gastos exagerados de toda Igreja, inclusive pedindo para que os bispos se vestissem de forma mais simples, entrando em comunhão com a avassaladora maioria dos fiéis, que são humildes.

Esse posicionamento é ou não é parecido com os ensinamentos de nossos amados Pretos Velhos, por exemplo, que nos ensinam a viver com o que realmente precisamos, evitando gastos fúteis, o que lustra o ego e não a espiritualidade de ninguém.

O Papamóvel É de Todos: em 2013, em uma cerimônia aberta ao público, Papa Francisco foi surpreendido pelo pedido de uma mãe que dizia que seu filho, com Síndrome de Down, queria muito andar no Papamovel. Papa Francisco não pensou duas vezes e deu uma volta com o menino em seu veículo.

A Umbanda pede que dividemos não apenas aquilo que nos sobra, mas tudo aquilo que temos. Transformar a formalidade de um veículo oficial em um instrumento de alegria para uma pessoa necessitada é colocar em prática esta lição.

Vinicio Riva: na minha opinião esse é um caso bastante emblemático. Para quem não conhece, Vinicius Riva é um italiano residente na pequena cidade de Vicenza que sofre de uma terrível doença genética que lhe enxeram de enormes verrugas pelo corpo inteiro, incluindo toda sua face. Além das terríveis dores, Vinicius sempre foi ridicularizado por todos devido sua aparência. Apesar de ser morador de Vicenza desde sempre, e a cidade já ter sido visitada por outros pontífices, Papa Francisco foi o único que fez questão de beijar e abraçar de forma carinhosa e emocionante aquele sujeito já quase desalentado.

Isso nos fez lembrar que a matéria não é nada além de um receptáculo temporário, sendo que o que realmente importa é o espírito moldado pelas atitudes que temos. 

Contra o Julgamento dos Homossexuais: apesar de ser um assunto que deveria ter sido ultrapassado há muito tempo, infelizmente ainda vivemos em um mundo que vomita ódio contra os diferentes, e a homofobia ainda está presente. Papa Francisco, no entanto, mesmo indo contra a vontade expressa de inúmeros cardeais, sempre se coloca a favor das pessoas homossexuais. Sua frase mais famosa foi dita logo no início de seu pontificado: "e a pessoa é gay, procura pelo Senhor e tem boas intenções, quem sou eu para julga-la?".

O Umbandista deve julgar ao próximo, ou deve amar e respeitá-lo mediante seus atos?

Os Missa Para os 12 Detentos: Papa Francisco surpreendeu a todos durante a Semana Santa, ao realizar uma missa em um presídio para menores e, além de tudo, lavou e beijou os pés dos 12 infratores que ali estavam.

Esse gesto mostra que, como todo Umbandista sabe, não devemos e nem podemos julgar as pessoas independente dos atos que praticaram. 

Vamos Proteger a Floresta Amazônica: em sua visita ao Brasil, Papa Francisco se reuniu com índios nativos e escutou os relatos de suas lutas contra os fazendeiros. O resultado foi que Papa Francisco se tornou um defensor para a proteção da Floresta Amazônica do desmatamento desmedido pelo homem branco.

Esse assunto acho que nem preciso falar nada né? Defende a ecologia, fala com índios (Caboclos)...

Ele Não Anda Mais de Moto: eu não sabia disso, mas o Papa é fã de moto Harley Davidson. Como hoje em dia raramente ele consegue andar, acabou vendendo sua moto Harley e doando o dinheiro para a Caridade.

Vejam bem: caridade.

Falando em Caridade: recentemente soubemos que há muito tempo Papa Francisco sai pelas madrugadas em Roma, vestido como um padre comum, junto com seu amigo, o Arcebispo Konrad Krajewski, para alimentar os mais pobres da cidade.

Ateu Pode Ser Gente Fina: pois é; Papa Francisco já disse em letras garrafais que ser religioso não transforma ninguém em uma boa pessoa, e que muitos ateus que conhece são pessoas maravilhosas desde que façam o bem.

O Papa é Moderno: não existe assunto que seja tabu com ele. Papa Francisco recentemente disse que a Igreja Católica é obcecada em perseguir casamento gay, pessoas que abortaram e que adotam métodos contraceptivos. 

Se esse posicionamento fosse em uma pessoa normal seria moderno; vindo de um Papa, é MUITO mais moderno. igual nossa religião.

Esses são alguns exemplos pontuais de como o Papa Francisco é uma pessoa que deve ser usada como norte moral para todos os umbandistas. Deixo aqui a reflexão (que cabe para mim também): o que nós, umbandistas fiéis a religião, fazemos de parecido com aquilo que temos de ferramenta? Praticamos a caridade de verdade, repartindo com o próximo aquilo que temos? Nós realmente entendemos e RESPEITAMOS a diversidade entre as pessoas, seja de qual ordem for? Nós respeitamos a natureza de verdade, ou ficamos apenas nas frases bonitas de Facebook?

Enfim, nós somos mais Papa Francisco ou mais do mesmo?

Axé meus irmãos em Oxalá.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Pai Joaquim de Angola


Se existe uma linha de trabalho que amo é a dos Pretos Velhos. Sempre tive uma admiração enorme pelos vozinhos e vozinhas por vários motivos: desde a forma de trabalhar, com a serenidade que lhes são comuns, até pela tranquilidade que eles nos passam de uma forma completamente natural (lembro que costumava dizer que eles tinham chá de camomila no sangue). Com todo o respeito e admiração que tenho por rigorosamente todos os guias que atuma nessa linha, incluindo Pai Tonico, o qual tenho a honra de trabalhar em parceria, um Preto Velho em especial sempre me chamou a atenção de uma forma diferente: Pai Joaquim de Angola.
  
Meu falecido ex-sogro e Pai de Santo, Joaquim Correa (sim, olhem as coincidências nos nomes) trabalhava com as forças de Pai Joaquim de Angola. Lembro até hoje a primeira vez que ele se manifestou em seu aparelho, arcando seu corpo aos poucos até ficar completamente curvo, mostrando e demonstrando (ele sempre foi um grande professor) todo o peso do conhecimento empírico que é comum aos guias desta falange. Costumava cantar seus pontos de força com a tranquilidade na voz que apenas aqueles que estão cobertos de serenidade conseguem. Fazia questão de colocar minha filha Yasmin aos seus pés para ensinar o que estava fazendo e ter grandes e proveitosas conversas com ela. Seu meio coco como cuia estava sempre embebido em cachaça, mel e um ramo de arruda. Conversar com Pai Joaquim era uma verdadeira oportunidade de crescimento.

A história do falangeiro desta linha (o Joaquim de Angola “original”, o qual doutrina todos os demais guias para atendimento em seu nome) é bastante interessante e reflete como seria seu trabalho na Umbanda anos após seu desencarne. Nascido em uma pequena aldeia de Angola (onde hoje é localizada a cidade de Lobito), foi escravizado e trazido para o Brasil pois apresentava uma condição física diferenciada, além de ter vários filhos (os colonos enxergavam os escravos robustos e com vários filhos como se fossem verdadeiros reprodutores, tamanho preconceito e destrato). Apesar de jovem (sua idade beirava os 30 anos nesta época), Joaquim (que não era o verdadeiro nome dele, vale a pena lembrar) era uma pessoa com grande conhecimento na manipulação das ervas e utilizava esse conhecimento não apenas para promover curas medicinais (o que era relativamente comum entre os escravos), mas principalmente para trabalhos espirituais.

Com o tempo, ganhando a confiança de todos seus semelhantes, passou a ser o curandeiro oficial de seu quilombo, o que chamava a atenção de todos, inclusive dos colonos. Quando a medicina convencional não dava conta de alguma enfermidade, levavam para que aquele sábio escravo pudesse fazer suas rezas e mandingas, visando a cura. Essa prática o fez conhecer mais de perto vários de seus algozes sociais (os colonos que apoiavam a escravidão) e a fé que cada um deles carregava na Igreja Católica e Jesus Cristo. Apesar de não ter se convertido a qualquer religião, Joaquim passou a querer conhecer mais e mais sobre a história daquele carpinteiro que até seus 33 anos conseguiu mudar o mundo que todos vivem. A partir daí sua admiração pelo Mestre Jesus ficava mais evidente.

Seu desencarne ocorreu de uma forma bastante trágica, quando não pôde curar a filha de um importante fazendeiro, que na época era seu “dono” (sim, os escravos oficialmente tinham donos, por mais absurdo que isso possa parecer). Aquela criança tinha traçado em seu destino uma doença que iria lhe custar a vida e não haveria nada e nem ninguém que pudesse mudar aquilo. Após o falecimento da criança, Joaquim foi açoitado até a morte, sofrendo na carne e na alma todo ódio que consumia aquele colono.

Ao chegar ao Plano Astral, ainda envolto aquela sensação de dor, esbravejava perguntando aonde estava Deus, que lhe deixava desamparado pela vida toda. Aonde estaria a tal Paraíso, que tanto falavam? A revolta era muita e ali ele permaneceu por tanto tempo que não conseguiria sequer medir se foram horas, dias, semanas, anos ou décadas. Quando sua ira abrandou, pediu em oração que Deus pudesse lhe acudir, porque não poderia ficar ali sozinho, sem poder ajudar mais ninguém. Queria ser útil mesmo após desencarnado. Nesse momento Joaquim sentiu alguém lhe tocando as mãos; era Jesus Cristo que veio pessoalmente a pedido do Pai Maior escoltar para sua futura e definitiva morada (Aruanda) aquele que seria um dos seus mais simbólicos e importantes trabalhadores: a partir daquele momento, dava início o processo dentro da Umbanda do, agora sim Pai, Joaquim de Angola.

Pouco se sabe (e nada de realmente pontual foi dito para mim nesse estudo) sobre as práticas que Pai Joaquim aprendeu em Aruanda, mas sabemos que se encarnado ele possuía o dom para manipulação das ervas, enquanto trabalhador da Umbanda ele passou a ser o maior entre os maiores manipuladores das energias contidas na natureza. Por ter sido o primeiro Preto Velho a ter a oportunidade de criar uma falange para trabalhar na Umbanda, atualmente é a maior falange existente (dificilmente entramos em algum terreiro e não tem ali pelo menos um Pai Joaquim de Angola). Todos os guias de sua falange possuem um grande conhecimento sobre os assuntos inerentes a magia, então “o que Pai Joaquim de Angola faz está feito”, como diria o velho dito sobre ele.

O conhecimento de magia não se limita a magia branca, mas também o conhecimento do todo tipo de magia de baixa vibração (ou magia negra). É claro que nunca, sob hipótese alguma, qualquer guia da Umbanda (especialmente os Pretos Velhos) fariam trabalhos de magia nega, mas para combater é preciso conhecer. Esse conhecimento veio através de uma das parcerias mais antigas na Espiritualidade: Exu e Preto Velho. Sim, Pai Joaquim de Angola é considerado mandingueiro e tem essa alcunha por ser um grande conhecedor da magia de Exu. Se hoje é relativamente comum escutarmos que determinado guia “veio virado”, isso só ocorre porque em algum momento Pai Joaquim de Angola decidiu aprender com os Exus e foi humilde o suficiente para chamar seus compadres quando necessário durante qualquer trabalho.

Eu disse que Pai Joaquim de Angola não era necessariamente Joaquim. Seu nome enquanto encarnado pouco importa e só contribuiria para enaltecer a matéria, e não seu trabalho espiritual. Aquele falangeiro decidiu usar o nome Joaquim, por várias referências, entre elas o significado da palavra Joaquim, que é algo como “aquilo que Deus estabelece”. Pai Joaquim de Angola, portanto, é um mensageiro que traz aos terreiros de Umbanda tudo aquilo que o Pai Maior determina.

Ah, outra curiosidade: sabe quando chamamos os Pretos Velhos de vozinhos? Então, é “culpa” de Pai Joaquim de Angola. Segundo alguns estudiosos, Joaquim seria o nome do avô de Jesus (São Joaquim), por isso é considerado o “avô de todo os santos”. Como se manifestou como Pai Joaquim de Angola, as pessoas trouxeram este conceito católico (Joaquim = avô) para nossa amada religião.

Eu aconselho muito a todos os leitores que puderem, se consultar com algum guia que atua na falange de Pai Joaquim de Angola. É uma experiência única e maravilhosa absorver um pouquinho que seja do conhecimento e do axé dessa linha. Todo meu amor e respeito ao avô dos avôs. Adorei as almas.

Quer apender a fazer um trabalho de Preto Velho? Então vamos lá:

A firmeza abaixo deve ser feita preferencialmente no terreiro onde a pessoa frequenta/trabalha, porém, dependendo da situação pode ser entregue em algum cruzeiro (lembrando que é Obaluaiê quem rege esta linha de trabalho) ou, se a pessoa já tiver familiaridade com firmezas espirituais, pode ser realizada em casa mesmo.

Ingredientes:

1 Alguidar médio
Café em grãos
1 turmalina negra
1 ametista
21 contas de Nossa Senhora
1 fumo em corda
1 cachimbo (com fumo dentro)
1 xícara com café
Incenso de guiné
1 vela de sete dias cruzada (preta e branca)

Montagem:

Coloque os cafés em grãos no alguidar;
No meio do alguidar coloque a vela de 7 dias;
Do lado direito coloque a turmalina;
Do lado esquerdo coloque a ametista;
Circule com as lágrimas de Nossa Senhora;
Coloque o pedaço de fumo aonde quiser, de preferência em lugar que fique bonito ao olhar;
Do lado de fora do alguidar coloque a xícara com o café;

Quando a vela de sete dias terminar, você pode trocar e deixar a firmeza “sempre acesa”, colocando outra velha de sete dias. Se não conseguir, acenda uma vela palito pelo menos uma vez por semana.

Sempre que firmar a vela (seja de sete dias ou palito), acenda o cachimbo e de três baforadas, se concentrando naquilo que quer pedir. O cachimbo pode ficar ao lado da xícara de café sem problemas.

Pronto, um ritual bastante simples, mas de muita força se for feito da forma correta. Entre em contato com o Preto Velho que te protege. Entre em contato com esse lindo trabalhador de Deus.