quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Os Mistérios de Tranca Ruas

Olá irmãos em Oxalá. Quando iniciei esse blog, minha ideia era falar um pouco sobre os Orixás e sobre as linhas de trabalho da Umbanda em si (Caboclos, Pretos Velhos, Boiadeiros, etc), mas recentemente algumas pessoas me procuraram pedindo para falar sobre alguns guias em específico. Eu nunca gostei da ideia de saber história de guia, porque acho que o trabalho da entidade em si, após doutrinado para trabalhar na Umbanda, é muito mais importante que sua história enquanto encarnado, mas querendo ou não acabei escutando os guias falarem. Eu peguei essas histórias e juntei com a forma de trabalho dos guias e iniciei esse pequeno estudo, para que possamos conhecer não apenas a história desses guias enquanto encarnados (a maior parte dessas histórias remetem ao falangeiro) mas sua forma de atuação específica e algumas curiosidades. 

Para começar, pensei em falar sobre Pai Joaquim de Angola ou talvez do Cacique Tibiriçá. Baiano Zé do Coco foi uma das minhas opções pelo amor e respeito que tenho por ele, mas achei que seria bom começar com aquele que é um ícone dentro da religião e, até mesmo quem não gira na Umbanda conhece seu nome: Tranca Ruas!

Logo após a Umbanda ser anunciada pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas através da mediunidade de Zélio Fernandino, em 1908, surgiu a primeira manifestação de um guia espiritual com atuação na Esquerda. Apesar de não se denominar como Exu, Orixá Malê, que se apresentava como Caboclo, era na verdade um trabalhador da Esquerda que, para evitar maiores preconceitos na época, não mostrava a qual linha pertencia de verdade.

Portanto, ao contrário do que muitas pessoas falam, Exu trabalha na Umbanda desde seu anúncio. No início, porém, o culto aos Exus era bastante diferente de como vemos hoje. Os trabalhos eram feitos basicamente para desobsessão, e os rituais muito simples. Exu sequer usava velas e as poucas tronqueiras existentes nos terreiros eram altares de devoção a Santo Antônio, com paredes brancas e muitas flores. O culto aos Exus realente era similar aos Caboclos. Lá pela década 1930 as primeiras linhas de Exu começaram a se manifestar, sendo que algumas delas sequer trabalham hoje. Seu Sete Encruzilhadas era o mais comum nos terreiros, pois atuava sob a regência de Oxalá e, me desculpem o termo, "assustava menos". Era um guia calmo e acolhedor.

Tínhamos a incorporação de Sete Encruzilhadas na linha de Oxalá, Exu Marabô na linha de Oxossi, Gira Mundo na linha de Xangô, Exu Caveira na linha de Obaluaiê, Exu do Lodo na linha de nanã, mas não existia nenhum guia que atuava na linha de Ogum que, já naquela época, era sabido que "comandava" a linha de todos os Exus. Na década de 1940, porém, de forma massificada (vários terreiros espalhados pelo Brasil todo de uma só vez) surgiu o primeiro Exu que atuava sob a regência de Ogum e, de forma bastante escancarada, trazia aos terreiros o trabalho de manipulação de Magia. Esta linha se denominava Tranca Ruas.

A apresentação de Tranca Ruas é um verdadeiro marco na história da Umbanda, pois chamou a atenção para seus trabalhos realmente incomuns na época, o que fazia com que os médiuns tivessem que estudar para aprender aquilo que estava sendo realizado. E esses rituais, que eram diversos, surgiam por Tranca Ruas, mas com a autorização do Plano Espiritual para tal. A vinda de Tranca Ruas e sua forma de trabalhar indicava que os médiuns estariam (ou deveriam estar) preparados para realizar trabalhos mais pesados, além das desobsessões já comuns à época. Foi com Tranca Ruas que o elemento fogo passou a ser utilizado durante os atendimentos aos assistidos e um ritual bastante utilizado até hoje foi criado, que é a Roda de Fogo. Sabe aquele assistido que precisa de um descarrego mais forte, e é colocado no meio de uma roda cercada de pólvora (fundanga)? Então, foi Tranca Ruas que nos apresentou esta prática, FUNDAMENTADA dentro da Lei Maior.

Por trabalhar sob a regência de Ogum, Tranca Ruas é conhecido como Senhor dos Caminhos e por isso quando ele surgiu também veio a informação de que o ponto de energia dos Exus é a encruzilhada. Tendo esse novo conhecimento, as oferendas feitas aos Exus passaram a ser realizadas nas encruzilhadas, por orientação de Tranca Ruas. É justamente por este motivo que vários médiuns ainda hoje quando arriam algum trabalho em Encruzilhada, fazem 3 firmezas: uma para o Exu que receberá a energia da oferenda; outra para o que chamamos de "dono da encruza", que é o Exu responsável para garantir que a entrega que for firmada com segurança não seja atacada por kiumbas; e Tranca Ruas, por ser ele quem apresentou a encruzilhada como ponto de força na Umbanda.

Mesmo sendo regido por Ogum, cada Tranca Ruas tem um campo de atuação específico. Na maioria das vezes essa designação sequer é conhecido pelo médium, mas quando acontece conseguimos identificar qual é sua especialidade, por assim dizer: Tranca Rua das Almas, por exemplo, atua na ordem (Ogum) com atuação no trono da Evolução (almas = Obaluaiê, que rege a evolução do ser). Tranca Rua das Almas, portanto, é um Exu de Lei que tem como foco direcionar a pessoa para a sua evolução (reforma íntima), seja qual for o meio que precise utilizar para conseguir.

A Umbanda sempre foi perseguida pela Igreja Católica e pelos evangélicos. Apesar de hoje estar mais abrandada essa fúria, há algumas décadas o preconceito era tamanho que os umbandistas eram associados ao demônio. Quando Tranca Ruas surge trazendo rituais de Magia dentro da religião, aí foi o prato cheio para os preconceituosos se inflamarem ainda mais. Foi justamente por conta disso que as imagens dos Exus deformados (sem pés, vermelhos, alguns nus, com chifres, etc) se tornaram comuns. Tranca Ruas, mesmo fazendo um lindo trabalho sob a Lei de Ogum e com a autorização de nosso Pai Maior, passou a ser considerado pelos religiosos de outras denominações, como a personificação do mal que a Umbanda causaria. Esta afronta ao trabalho maravilhosos de Tranca Ruas e de todos os Exus é tão grande, que infelizmente é comum mistificadores nas igrejas evangélicas utilizarem o nome "Tranca Ruas" como referência a espíritos demoníacos. 

A importância de Tranca Ruas é tão importante na Umbanda que, ainda hoje, todo e qualquer terreiro de Umbanda possui alguma entidade designada pela Espiritualidade, atuante na falange de Tranca Ruas. Pode ser que ele nunca se manifeste incorporado em algum médium (e dificilmente esse Exu responsável pelo terreiro incorpora), mas sua energia está presente, especialmente nos terreiros que possuem a prática da Roda de Fogo, ou da queima da fundanga (seja qual for o nome dado no terreiro). Desta forma, é prudente e respeitoso sempre saudarmos a força de Tranca Ruas, independente de conhecermos ou não aquele guia em específico.

Para terminar, uma curiosidade sobre esta linda linha é que, diferente de outros falangeiros, que se apresentam como antigos poderosos que precisam evoluir (quem aqui não conhece a história do Exu da Meia Noite, antigo barão do café de Santos, passe a conhecer porque é linda), Tranca Ruas é a força do homem simples, do homem do povo, daquele que andava entre os pobres e comuns quando encarnado, e é isso que me deixa mais maravilhado dentro da nossa religião. A humildade do Preto Velho e do Caboclo se mantém com Tranca Ruas, que é o protetor de todos na Umbanda. 

Agora vamos falar como agradar Tranca Ruas? Então vamos lá.

Antes de tudo é bom lembrar que um ritual de firmeza para qualquer guia (de Exu a Preto Velho) deve ser feito com muita seriedade, com total dedicação da pessoa (não fazer nada por fazer, de forma automática) e principalmente com as devidas proteções. Portanto os rituais abaixo são direcionados para pessoas com certa experiência. Se o leitor que está vendo isso quiser agradar Exu Tranca Ruas mas não tiver certo se está apto, peça ajuda ao terreiro que você frequenta e confia. Certamente o Pai ou Mãe de Santo te ajudará de coração. Bom, vamos lá:


FIRMEZA DE TRANCA RUAS (este ritual serva para qualquer tipo de agradecimento ou pedido de comunhão com Tranca Ruas)

1 Alguidar médio
Farinha amarela (milho)
7 pimentas vermelhas
Dendê
Cachaça
1 Charuto
1 vela vermelha
1 vela preta
1 vela branca

Firme a vela branca próximo ao local onde será feito a manipulação dos ingredientes, dedicando aquela vela a Tranca Ruas.

Fazer o padê misturando a farinha com metade da cachaça + dendê (o suficiente para que a farofa fique bastante úmida). Essa mistura deve ser feita com as mãos, preferencialmente sem o auxílio de nenhum outro objeto. Isso é necessário para que a sua energia seja transmitida ao padê e desta forma haja uma maior sintonia entre você e a oferenda. Neste momento a pessoa deve firmar seu pensamento a Tranca Ruas, agradecendo a possibilidade de estar comungando com ele e, principalmente, agradecendo sua proteção.

Coloque o padê no alguidar (eu disse o médio para poder acomodar bem os ingredientes, mas pode ser do grande também).

Enfeitar o alguidar com as sete pimentas, pedindo que Seu Tranca Ruas, que atua sob autorização de Ogum possa te dar caminho.

Na hora de entregar o padê (ou arriar a entrega, como dizemos na Umbanda), coloque cachaça em um copo (pode ser pequeno), dedicando aquele elemento a Tranca Ruas, pedindo que ele te limpe na condução dos caminhos abertos. Esse copo deverá ficar ao lado do alguidar.

Firme as velas (preta e a vermelha) consagrando a Tranca Ruas.

Regue o padê com mais um pouco de dendê.

Acenda o charuto e bafore 7 vezes sobre o padê, pedindo proteção. Após isso, coloque em frente ao alguidar ou, respeitosamente, sob o padê.

Faça um círculo em torno do padê arriado com o que restar da cachaça, pedindo que aquele elemento volátil (álcool) possa impedir que eguns se aproximem daquela entrega.


Pronto, sendo feito de coração e com firmeza, sua entrega foi bem sucedida e você entrará em comunhão com Tranca Ruas. 

Você pode despachar os itens utilizadas (menos o alguidar, que pode e deve ser reutilizado) em mata, água corrente ou na estrada. Os itens não perecíveis (resto de velas) DEVEM ser descartados de forma a preservar o meio ambiente, portanto sob hipótese alguma na natureza.


Axé irmãos
Laroyê Exu Tranca Ruas

Um comentário:

  1. Muito obrigada por compartilhar.
    Aguardando ansiosa as próximas postagens.
    Grande abraço. Axe

    ResponderExcluir