sábado, 10 de novembro de 2018

Estudo Sobre preto Velho - Parte 3


AS PRIMEIRAS CACHIMBADAS DE PRETO VELHO


A Umbanda foi anunciada em 1908, através da mediunidade do jovem Zélio Fernandino. A primeira manifestação do Caboclo das Sete Encruzilhadas foi um dia antes do anúncio da religião, e foi feito durante os trabalhos em um Centro Kardecista, em Niterói. Para a época, o Kardecismo em si já não era muito bem visto por boa parte das pessoas que, católicos por uma osmose social, não creditavam que existiria a reencarnação, que é um dos pilares do Espiritismo.
 
Os kardecistas, no entanto, eram pessoas com notável busca pelo conhecimento da Espiritualidade, tendo como base os vários livros de Allan Kardec (se somarmos a quantidade de páginas desses livros, eles superam com folga a Bíblia Sagrada). Sendo assim, eram pessoas que podiam até desagradar boa parte da sociedade católica, mas tinham seu respeito e não eram alvos de manifestações de ódio. Não eram perseguidos. Quando a Umbanda foi anunciada, vários kardecistas questionaram o fato da religião ter em sua base, espíritos atrasados ao ponto de ainda manterem suas características anteriores como encarnados, sendo um índio, por exemplo. Pelo pensamento kardecista, quando alguém desencarna e é resgatado pela Luz e consegue trabalhar ajudando os encarnados, essa pessoa se desfaz de sua aparência física enquanto encarnado e decide como se apresentará. Uma pessoa que desencarnou sem as pernas não trabalharia para a Espiritualidade, segundo os kardecistas, sem suas pernas.

Se os questionamentos do porque um índio anunciaria uma religião, a presença naquele instante do espírito de um escravo, se apresentando arcado como se anda sofresse pelos males da carne, era realmente algo inimaginável. Se olharmos hoje a situação dos negros no Brasil, podemos ver que ainda existe um preconceito prático muito latente na sociedade; imaginemos, então, o ano de 1908, onde estávamos há apenas 20 anos da assinatura da Lei Áurea. A maior parte dos escravos recém libertos ainda estavam vivos e, não raro, muitos ainda trabalhavam como verdadeiros escravos (independente da assinatura da Lei). A figura do cidadão negro sofria um preconceito muito grande, então colocar um escravo como um dos alicerces da religião, era mais do que algo arrojado; era uma verdadeira afronta social.

A Umbanda sempre foi e continua sendo uma religião que transcende o que conhecemos como padrão. É comum os excluídos serem representados na Umbanda, mas nossa religião nunca teve o objetivo de ser restringida a meia dúzia de pessoas, muito pelo contrário. A Umbanda sempre teve todas as condições para abraçar a todos e ser “a grande religião” de toda uma sociedade. Dito isso, como poderiam os Guias de Luz trazerem uma grande quantidade de fiéis para a religião, fazendo com que a Umbanda fosse cada vez mais conhecida, colocando um Exu todo vestido de preto, bebendo seu marafo e baforando um charuto? Se isso ocorresse desde o início, hoje não existiria a Umbanda.


Logo nas primeiras manifestações de Preto Velho (Pai Antônio, também pela mediunidade de Zélio Fernandino), tivemos a informação de qual trabalho seria realizado por aquela linha. As palavras dos nossos amados vozinhos sempre foram doces e traziam o conhecimento empírico adquirido pelas suas passagens conosco, mas também a referência àquela pessoa que acabou sendo o grande mestre, o qual já citei no capítulo anterior: Jesus Cristo. Quando um Preto Velho trabalha, manipula as energias com suas mirongas, mas ele não tem a necessidade de verbalizar que está fazendo isso ou aquilo. Não há mal algum em alinhar as energias de alguém ao mesmo tempo que fala sobre Fé e sobre como Jesus Cristo mostrava como agir mediante determinada situação incômoda na vida.

Esta forma inicial de atender, ajudou a diminuir um pouco o preconceito com a Umbanda, além de fazer um paralelo costumeiro entre Preto Velho e Jesus Cristo, sendo uma das entidades mais procuradas até hoje nos terreiros de Umbanda. Mas como eram os trabalhos dos vozinhos na época? A Umbanda Branca, vertente fundada pelo Caboclo das Sete Encruzilhadas, Pai Antônio e Orixá Malê, tinha em sua ritualística o uso apenas da roupa branca, os fios de conta, defumadores, velas e pontos riscados. A maioria dos assistidos que buscavam atendimento com esses guias, queriam cura para doenças ou apenas conhecer os conceitos da nova religião. Para conhecer a Umbanda, todos os guias podiam servir como referência, porém para cuidar de assuntos relacionados à saúde, via de regra os atendimentos eram feitos por Pai Antônio, o que fez com que de uma forma bastante natural, os primeiros atendimentos fossem realizados prioritariamente por Preto Velho. Caboclo conduzia o trabalho, Malê (que nada mais era do que Exu) se dedicava à proteção do terreiro e às desobsessões, enquanto Pai Antônio curava. O primeiro ponto cantado de Pai Antônio mostrava essa sua característica de trabalho:

Dá licença Pai Antônio
Que eu não vim lhe visitar
Eu estou muito doente
Vim pra você me curar
Se a doença for feitiço
Bulará neste congá
Se a doença for de Deus
Pai Antônio vai curar
Coitado de Pai Antônio
Preto-velho curador
Foi parar na detenção
Por não ter um defensor
Pai Antônio é quimbanda, é curador
Pai Antônio é quimbanda, é curador
É pai de mesa, é curador
É pai de mesa, é curador

As primeiras cachimbadas de Preto Velho na Umbanda também eram cheias de conversas com grandes aconselhamentos. Era praxe as entidades ficarem rodeadas de pessoas que, sentadas em admiração à sabedoria daquele Guia de Luz, escutavam cada palavra de sabedoria. Existe um áudio (abra o link AQUI) onde podemos escutar alguns minutos da conversa de Pai Antônio com frequentadores e trabalhadores da Tenda Espírita Nossa Senhora de Piedade. São momentos sem qualquer tipo de atendimento pontual a alguém, mas uma verdadeira união entre entidade e seus filhos e assistência. Todos cantando junto os pontos, que eram puxados pelo Preto Velho, sem qualquer auxílio de atabaques. Com o passar do tempo, esta referência de ser o grande conselheiro da Fé nos terreiros ficou cada vez mais enraizada, podendo, então, fazer com que uma outra face de trabalho dos Pretos Velhos pudesse ser mais conhecida: as mandingas.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Estudo Sobre Preto Velho - Parte 2


A RELIGIÃO DE PRETO VELHO


Em vários estudos que fizemos acerca da espiritualidade, aprendemos que um Guia de Luz, por mais evoluído que seja, é um indivíduo e, desta forma, leva ao plano espiritual características bastante singulares, que é exatamente o que diferencia o trabalho de cada guia, mesmo sendo da mesma falange. Apenas para exemplificar, é bastante comum vermos nos terreiros, em uma mesma gira, dois ou mais Guias com o mesmo nome (portanto, representando a mesma falange de trabalho), porém falando de forma diferente um do outro e com trejeitos e rituais próprios. Existe, logicamente, a contribuição do médium e suas referências, o que pode trazer de um grau mais ou menos intenso, algum animismo na incorporação, porém o que existe são entidades/indivíduos com uma visão muito própria de sua missão perante a Espiritualidade configurada para trabalhar na Umbanda, e é isso que torna cada incorporação distinta entre si.

O que sempre me deixou intrigado em relação às manifestações da Espiritualidade, no entanto, não foram as distinções, mas os pontos em comum entre elas. Justificar as diferenças é bastante simples, seja qual for o ponto de vista, tanto olhando pelo prisma da individualidade de cada guia, seja por um olhar mais maquiavélico da coisa, entendendo que pode existir um costumeiro animismo no médium que recebe as forças de um guia e imprime naquela manifestação, suas vontades ou conhecimentos. Quando olho o cenário umbandista, onde temos terreiros espalhados por todo Território Nacional, é bastante crível que exista uma verdadeira manifestação da Espiritualidade, pois há anos existe uma série de pontos em comum nos trabalhos dos Guias Espirituais. Pai Joaquim de Angola incorporado em um médium em São Paulo vai possuir muitos pontos em comum com outras incorporações de Pai Joaquim de Angola em um médium em Belém do Pará, por exemplo. E isso acontece há décadas, muito antes do advento da internet (o que poderia justificar espalhar o conhecimento entre as pessoas).

Uma das características nas manifestações dos Pretos Velhos está na constante referência dos guias a Jesus Cristo. Não necessariamente à Bíblia ou a conceitos do dogma católico ou protestante, mas a Jesus Cristo. Não me cabe aqui questionar essa referência, afina de contas Jesus Cristo é, sem sombra de dúvidas uma das pessoas mais iluminadas e abençoadas que já andou entre nós, sendo por muitas, e me incluo neste rol, o ser mais iluminado a andar entre nós. O questionamento, no entanto, existe no fato histórico de que, já quando a Umbanda foi anunciada, o número de cristãos na África era bastante acanhado em relação aos muçulmanos, por exemplo. Vejamos como eram as religiões das principais nações que trouxeram seus escravos para o Brasil:

  • Angola: possuía uma forte presença islâmica e também de religiões tradicionais africanas. Com o passar dos anos, através de uma \ lenta, mas assertiva ação dos católicos (especialmente portugueses e italianos) o cristianismo foi se tornando a religião predominante (hoje representa quase 95% de toda população angolana), mas na época da escravidão os cristãos eram em um número pífio.
  • Nigéria: desembarcaram aos montes na Bahia durante o processo de colonização brasileiro, para trabalharem no cultivo do fumo. Se hoje quase metade da população é islâmica, na época da escravidão, os escravos cristãos sequer existiam pois tinham em seus cultos próprios (o que se assemelha ao que o Candomblé pratica no Brasil) a sua base religiosa.
  • Guiné: a existência de escravos cristãos vindos da Guiné é praticamente inexistente. A fundação do país em si nos remete a união de vários povos distintos que resolveram fundar um país tendo como base religiosa o culto à Ancestralidade de uma forma bastante pessoal, ao ponto de entrarem em uma guerra santa (conhecida como jihad) para impedir que o islamismo fosse a religião obrigatória por colonizadores. Ainda hoje mais da metade da população é muçulmana.
  • Congo: um dos países mais novos, passou a enviar escravos para o Brasil apenas no final do século XVIII, e eram conhecidos como sendo mais brutos, muito mais voltados para sua ancestralidade que os escravos de outras nações. Eram bastante arredios e definitivamente não eram cristãos. Hoje mesmo ainda continuam sendo um país bastante voltado para o culto aos Deuses (orixás) e a única religião que conseguiu entrar e se afixar (hoje possuem pouco mais de 10% da população) é justamente o islamismo.


O cristianismo católico já tinha chegado na África, porém estava longe de ser algo enraizado, principalmente junto aos escravos. Sabemos que devido às circunstâncias existentes, os escravos sincretizavam seus Orixás com os santos católicos, mas isso era mera necessidade prática para que não sofressem ainda mais as mazelas da escravidão, porém não existe qualquer relato de escravos cristãos em uma quantidade realmente representativa, especialmente os indivíduos que vieram para o Brasil no começo da colonização. Então por qual motivo existe desde o início da anunciação da Umbanda a referência dos Pretos Velhos a Jesus? Por que não Maomé ou até mesmo a referência ao orixá que cultuava?

A Umbanda é uma religião que, logo em seu início, se mostrou configurada para abraçar a todos e todas que sentissem a necessidade, não limitando as ações que um fiel deveria ter para se tornar umbandista, sendo a prática da Caridade a grande estrada a ser trilhada, mas não oferecendo um universo limitado de escolhas, com pouquíssimos dogmas e, principalmente, sem ter um livro sagrado a ser seguido (Bíblia, Torá, Alcorão, etc). O que ocorre, no entanto, é que apesar de ser abrangente e, em tese, poder ser espalhada pelo mundo inteiro, a Umbanda foi anunciada no Brasil e, em sua apresentação, tinha um forte apelo popular brasileiro, tendo na figura do índio, os verdadeiros ancestrais de nosso país, um de seus pilares, ao ponto de ser anunciada por um Caboclo. O Brasil é um país com tamanho continental há muito tempo, então em seu anúncio, a Umbanda tinha pela frente a missão árdua de trazer uma nova palavra de Caridade perante uma sociedade quase que toda ela católica.

A Umbanda não iria para frente e prosperaria se não tivesse que se adaptar às situações que se colocavam presente. A presença dos atabaques, por exemplo, só foi manifestada décadas após a anunciação da Umbanda, porque quase todos os umbandistas no início vieram do kardecismo, prática espiritualista muito baseada em rituais calmos, sem sequer músicas; imaginem a confusão que seria já introduzir atabaque, álcool e fumo nos primeiros rituais. Provavelmente não estaríamos sequer lendo esse texto. Com os Pretos Velhos se referindo constantemente a Jesus Cristo era algo parecido, porém ao invés de ocultar algum elemento para afastar os trabalhadores, falar daquele que os católicos chamavam de Filho de Deus, era um convite para a prática da fé em um lugar comum. Ninguém conhecia Oxalá, mas todos conheciam Jesus.

Sabendo disso, já em sua doutrinação e preparação no Plano Espiritual para trabalhar na Umbanda, os Pretos Velhos falangeiros (que nada mais são do que os “chefes” das falanges de espíritos de luz, ou os primeiros escravos a serem convidados pela Espiritualidade para trabalharem na Umbanda) tiveram que aprender sobre o cristianismo para falar ao trabalhador umbandista algo com maior propriedade. Neste aprendizado, muitos desses espíritos encontraram na vida do Mestre Jesus um norte a ser seguido e acabaram se convertendo (sim, Guias de Luz também se convertem) e, sendo assim, puderam falar com maior propriedade sobre Jesus. Claro que mesmo enquanto encarnado os escravos conheciam, sim, Jesus, mas era um conhecimento bastante raso e poucos eram realmente convertidos, especialmente os líderes, aqueles mais antigos que serviam como norte moral aos demais. No Plano Espiritual, puderam conhecer mais a fundo e se tornaram grandes trabalhadores de Sua obra.

Um guia que atua na falange de Pai Joaquim de Angola, através da mediunidade de Carlos Parada, fala a respeito da importância de Jesus, e do que ele representa:
Jesus via a todos como rei e rainha porque via o eterno em cada um, porque se Ele (Deus) é o princípio Divino, então todos tem que ser do Princípio Divino. Nós somos tudo feito na mesma criação. Temos que enxergar Deus dentro de cada um, mesmo que aquela pessoa seja humilde, como fez São Francisco de Assis quando foi abraçar o leproso”.

Preto Velho enxerga Jesus como alguém que consegue ver o princípio Divino em cada um, sendo assim consegue verdadeiramente tratar a todos com igualdade e respeito. A citação de Jesus servia como chamariz para as pessoas, porém não se limitava a isso. A vida terrena Dele serve como constante base para que os Pretos Velhos exemplifiquem aquilo que querem dizer. Outra passagem da conversa com Pai Joaquim exemplifica isso de forma bastante clara:

Na parte que Jesus disse ‘perdoai-vos Pai porque eles não sabem o que fazem’, ele já sabia o que ia acontecer. Ele viu que dentro do ser humano existe uma fera, e a fera ataca quando ela se sente ameaçada. Então ele viu que o ser humano não era tão bom assim, e o aprendizado foi saber que ele estava fazendo sua parte, então eles vão ter que fazer a parte deles. Digo isso porque o ser humano foi fera na hora de crucificar Jesus. Ele deu seu recado, que foi a maior coisa que ele podia dar.
Jesus ensinou como amar, e para amar você tem que matar a fera dentro de si”.

Analisando o histórico dos escravos, perceberemos que se o cristianismo não era tão comum a eles em sua época de encarnados, o islamismo seria algo mais palpável, mais próximo de suas realidades no Continente Africano. Logicamente não seria prudente logo de cara tentar trazer trabalhadores cristãos para a Umbanda falando de Maomé, porém muitos dos ensinamentos de Jesus foram replicados no Alcorão. Dois dos principais pilares do islamismo são a Fé, a Oração e a Caridade. Quando um Preto Velho fala de caridade segurando um rosário as mãos, nós de forma automática remetemos a Jesus, mas é um conceito que cabe muito bem a um muçulmano, por exemplo.

A religião do Preto Velho, portanto, não é o cristianismo nem o islamismo ou qualquer outra religião configurada pelo homem. Nem mesmo a Umbanda. A religião que Preto Velho traz no coração é a única capaz de abraçar a todos, independente de quem sejam. Sua religião é a Caridade.


quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Estudo Sobre Preto Velho - Parte 1


Quando decidi escrever um texto sobre nossos amados Pretos Velhos, tinha em mente não me restringir ao óbvio de outros estudos, que é falar sobre seu cachimbo, o porque de sua incorporação curvada, suas mirongas e coisas do tipo. A abordagem seria algo um pouco diferente, com informações diretamente dos Guias sobre como é o trabalho deles no Plano Espiritual, apresentando detalhes que, ao menos para mim, eram desconhecidos. Outra coisa que procurei bastante e encontrei poucas referências, eram questões inerentes a parte social dos Pretos Velhos falangeiros enquanto encarnados, ou seja, falar um pouco sobre a escravidão para entender o contexto de como aconteceu sua transição de escravo para um Guia de Luz.

Para entender quem eram os escravos africanos, precisamos ter a clara noção que o comércio negreiro atlântico (escravos levados da África para o Continente Americano), apesar de ter um custo humano extremamente alto, com suas quase 12 milhões de mortes, foi bastante desigual. Não eram todas as regiões da África viram sua população sendo negociada com os europeus; Costa do Marfim tinha sua relação comercial baseada em produtos têxteis e no marfim. Na região do Gabão quase não existia tráfico de pessoas. O reino de Benin (atual Nigéria), no entanto, serviu como maior base de relações comerciais de escravos até meados de 1530, e depois voltou com força no Século XVIII, devido uma guerra civil na Nigéria entre 1716 e 1732.

Algumas pessoas de forma desavisada ainda acreditam que os africanos eram escravizados por livre e espontânea vontade, o que está longe de ser verdade. Ocorre que na época o comércio de africanos negros era permitido pelas leis locais, porém existia uma forte resistência africana e, sem esse movimento de resistência, o número de mortes seria ainda mais devastador. Desde o início os africanos escravizados se voltavam contra o tráfico de maneira bastante sistemática, promovendo fugas e revoltas/motins. Boa parte dessas revoltas se davam dentro dos navios, quando os mesmos ainda se encontravam perto da costa, para que os escravos pudessem retornar às comunidades que faziam parte. A maioria, porém, acabava morrendo no mar (aí a explicação de chamarmos o mar de Calunga Grande, ou o Grande Cemitério).

As nações africanas colonizadas por Portugal, no entanto, tinham uma forte aproximação com os colonos, portanto foram as primeiras a fundir o regime costumeiro da África com o aparato jurídico europeu, contribuindo para a extinção do tráfico atlântico de escravos. A nação de Angola foi a grande expoente deste movimento. Quando ocorreu, no entanto, o descobrimento do Brasil pelos portugueses, viu-se necessário alterações nas leis existentes, para que o tráfico atlântico pudesse voltar a acontecer, já que os índios nativos do Brasil não tinham a mesma forma de trabalhar que os africanos, tendo um grande conhecimento no que tangia à produção agrícola, e nada mais que tivesse valor comercial para ser explorado. Com isso, o Brasil passou a receber uma grande quantidade de escravos africanos, especialmente Gana, Nigéria, Angola, Cabinda, Costa da Mina, Congo e Guiné. Os escravos dessas nações somaram algo em torno de 4,8 milhões de indivíduos durante a colonização até a Abolição, o que representa 86% de toda população que desembarcava no Brasil (os outros 14% eram divididos entre colonos e imigrantes).  

No período Colonial os negros desenvolveram uma intensa vida associativa. Mesmo quando escravizados, encontraram diversas maneiras de se reunir com seus pares. Algumas formas organizacionais - como as maltas de capoeira e os terreiros de candomblé - foram perseguidas; outras, como as irmandades religiosas sob a égide da Igreja católica e as agremiações de ajuda mútua, eram toleradas pela sociedade em geral. Todas tinham como objetivo satisfazer necessidades sociais, econômicas, culturais, religiosas e humanas de um segmento populacional que vivia em condições adversas. A abolição da escravidão, em 13 de maio de 1888, não resolveu todas essas necessidades. No entanto, abriu aos negros a possibilidade de se organizar sob condições diferentes daquelas do regime de cativeiro, com mais margens de liberdade.

Algumas dessas organizações foram realmente importantes e tiveram papel de destaque na época. A Sociedade Beneficente Estrela da Redenção, no Rio de Janeiro; a Sociedade Beneficente Luiz Gama, em Campinas e o Club Beneficente 13 de Maio, em Curitiba, foram criados como verdadeiros partidos políticos com o intuito claro de atender aos direitos dos negros recém libertos (toda essas 3 organizações, se instituíram em 1888, poucos meses após a assinatura da Lei Áurea). No início do Século XX, no entanto, várias novas associações surgiram, desta vez com cunho não apenas político, mas com viés de inserção do negro na sociedade, buscando direitos iguais não apenas no papel, mas na prática diária, cujas leias não garantiam nada o que acontecia na realidade.

O Brasil sempre foi um país muito religioso, mesmo naquela época. Existia uma grande parte da sociedade negra que eram, sim, representados pelo Catolicismo. Uma outra parte, porém, poderia até ter sua fé na Igreja Católica, mas observava o passado e percebia que nada de realmente relevante era feito pela Igreja para reverter a situação incômoda do preconceito racial existente. Foi nesse instante que, em uma casa humilde em Niterói, a Umbanda seria anunciada para todos, como sendo uma religião que atenderia a todos, sem distinção alguma de classe social ou etnia e, além de tudo, afrontaria a situação presente e teria em sua base a figura de um escravo negro, o qual traria todo seu conhecimento e sua simplicidade, mas que, com toda autoridade dada pela Espiritualidade, comandaria, junto aos espíritos dos Caboclos (também mal representados na sociedade), toda uma nova religião.

A Umbanda mostrava desde seu nascedouro que olhava de frente para as mazelas da sociedade e atuava de forma bastante clara enquanto, não apenas religião, mas uma ferramenta de mudança social bastante significativa. Para o umbandista, o Preto Velho é paz e amor, mas para a sociedade racista e injusta da época, Preto Velho e a Umbanda eram grandes afrontas, como veremos mais adiante.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

Zé Pelintra - Parte 5

OS ORIXÁS E OS SIMBOLISMOS DE ZÉ PELINTRA

Cada linha de trabalho de Seu Zé atua em sintonia com a vibração de determinado Orixá, e carrega consigo o arquétipo que lhe cabe, porém o Mistério de Zé Pelintra é regido por Oxalá, Ogum, Iemanjá e Iansã. Oxalá é o Senhor da Fé, da Plenitude, da Luz, do Branco, da Pureza. Isso nos leva a enxergar o porque da doçura de Zeu Zé e de seu poder em suas palavras, pois ele tem os mistérios congregados em si e costuma reunir seus filhos e encaminhá-los sempre em direção da fé. Além da análise das cores de suas vestimentas, podemos dizer verificar que Seu Zé é requisitado em trabalhos de abertura de caminhos ou para quebrar alguma demanda. Zé Pelintra é um exímio protetor, muito ágil em quebrar e anular magia negativas, então por isso conseguimos ver a vibração de Ogum em seu mistério. Seu Zé nos vivifica e coloca nossos potenciais e virtudes para fora, fazendo-nos sentir a grandiosidade da vida, e que somos parte do todo de Deus. Esta é a parte de Seu Zé que remete à nossa amada Mãe Iemanjá, rainha da Vida e geradora de tudo.  

Seu Zé também atua de forma incisiva em nossas vidas, propondo através de seus aconselhamentos as direções que podemos toar, mas de forma célere, imediata, baseado sempre na Lei Maior, portanto aí está a presença de Iansã em seu mistério. Os Malandros utilizam em seus trabalhos alguns objetos, como bengalas, punhais, navalhas, etc. Como não poderia ser diferente, tudo tem um fundamento. Vejamos então o significado de cada um deles: 

Bengala: denota idade, sabedoria e amparo. Via de regra Zé Pilintra que usa bengala está na falange dos Mestres, como dito anteriormente. São entidades que transitam em todas as linhas e muitas vezes assumem trabalhos dentro de um Terreio, inclusive sendo guias de frente daquela casa. 

Navalha: denotam o corte de magias negativas, incluindo o corte de magias de amarrações. Geralmente são entidades que atuam com maior ênfase em questões amorosas. 

Punhal: com atuação muito parecida com a linha da navalha, porém com vibração mais voltada a Lei. Seu Zé que trabalha com punhal tem um grande poder de para firmeza de trabalho e proteção. 

Fitas: instrumento comum a todas as linhas de Zé Pilintra, servem para dar sustentação às magias do guia para benefício rápido de seus filhos. As próprias fitas no chapéu do guia são cruzadas para dissipação de energia negativa e indicam, conforme sua cor, a linha de trabalho daquele guia em específico. 

Terço: faz parte do Mistério de Zé Pilintra no que tange à Fé (Oxalá). Apesar de toda linha de Seu Zé poder utilizar, as que quase que de forma obrigatória usam são as que remetem a linha do Mestre, ou os Juremeiros. 

Dados e Cartas: são oráculos milenares muito antes de virarem jogos de azar, e representam o conhecimento da linha de Seu Zé fora da natureza da Jurema, mas também do conhecimento sobre ocultismo. 


Em conversa com seu guia protetor na linha de Zé Pilintra, o escritor umbandista Marcel Oliveira ouviu de seu mestre, ao lhe questionar porque  as pessoas insistem em dizer que ele é boêmio, madrugador e mulherengo, o seguinte: “Eu realmente sou boêmio, pois vivo a caminhar e a cantar muito feliz a Luz do Luar. Luz esta que é minha Mãe Divina, a suprema Mãe de todos nós. Esta amada Mãe que nos acolheu em seu ventre sagrado e que gerou a tudo e a todos, esta mesma Mãe que eu sirvo com muito amor e devoção e que pretendo servir até o dia em que não me quiser mais.

Sim meu filho, amo todas as mulheres porque sei que todas elas são os frutos mais doces desta nossa Mãe Divina, que as acolho como parte Dela, logo, amo a todas e as defendo com todas as minhas forças, pois quando as amo e as defendo, estou servindo e amando nossa Mãe” 

domingo, 4 de novembro de 2018

Zé Pelintra - Parte 3

ZÉ PELINTRA E A ESQUERDA NA UMBANDA


Quem já foi em uma gira de Esquerda na Umbanda sabe que a forma de se apresentar no terreiro de um Exu é completamente diferente de um Caboclo ou um Preto Velho, não apenas na forma de trabalho em si (cada um com sua missão), mas no jeito que se comunica e que lida com a assistência. De repente nas seções mediúnicas se mostrou presenta uma tipo de entidade que, apesar de falar de Fé e Caridade na mesma intensidade de um Preto Velho e conhecia a manipulação das ervas tão bem quanto um Caboclo, o fazia com sorriso fácil e gargalhadas cada vez mais comum. Suas danças eram diferentes das que outras entidades faziam, pois era algo muito parecido com um samba de gafieira, denotando algo mais próximo da nossa realidade urbana e mundana do que as danças dos caboclos, por exemplo. Exatamente por esses motivos em seu início essas entidades eram entendidas como uma nova manifestação de Exu, uma nova falange da Esquerda.

Como essas entidades aprenderam na Espiritualidade com Zeu Zé Pelintra a manipular as forças da direita e da esquerda com a mesma intensidade e sabedoria, conseguiam desempenhar um belo papel nas giras de Esquerda. Foram desde o início grandes companheiros dos Exus e das Pombagiras, não havendo a necessidade de distinção entre as linhas. O que ocorria, no entanto, era que esses Guias acabavam se manifestando nas giras da Direita também, pela aproximação já dita com o Nordeste, eles vinham nos trabalhos dos Baianos, e poucas vezes conseguiram trabalhar, pelo fato dos dirigentes dos terreiros acharem que havia ali um "cruzamento" entre a Direita (Baiano) com a Esquerda (Exu), então eles podiam se manifestar mas ficavam tomando conta da Porteira ou apenas dando sustentação para os atendimentos. Isso fez com que a linha de Zé Pelintra em seu início ficasse manca, pendendo à Esquerda, quando na verdade poderiam e deveriam atuar em todos os trabalhos.


Com o passar dos anos, os dirigentes foram conversando mais com esses guias e eles passaram a trabalhar de forma igual nas giras de Direita, com os Baianos, e nas giras de Esquerda. Por ser uma linha com uma força tremenda e carisma sem igual, conseguiu a possibilidade de criar não apenas falanges próprias, mas uma linha com os novos trabalhadores, os Malandros. Com a chegada dos Malandros, que encarnavam a estirpe do malandro carioca, foi definido que a linha de Zé Pelintra vida do Catimbó atuaria nas giras específicas de sua Linha de trabalho, enquanto aos Malandros foi dada a incumbência de, apenas em casos pontuais de necessidade, trabalhar junto aos Exus e Pombagiras. Quando tem uma Gira de Zé Pelintra ou de Malandro, todos trabalham em conjunto.


Em estudos anteriores disse que não existe entidade mais evoluída que a outra, mas sim entidades com missões distintas entre si, e para cumprir essas missões a Espiritualidade oferece ferramentas de trabalho. Essas ferramentas via de regra são conhecimentos específicos sobre algo e, principalmente, autorizações pontuais. Entre as ferramentas de trabalho de Zé Pelintra e dos Malandros, está a autorização de entrar e sair de qualquer trabalho espiritual que estiver sendo realizado, seja no Plano Material, seja no Plano Astral. Isso quer dizer que se um determinado trabalho começa a ser feito por um Caboclo, ele pode ser concluído por Zé Pelintra; em uma gira de Preto Velho pode se manifestar um Malandro da mesma forma, sem qualquer constrangimento ou limitação de trabalho.


Zé Pelintra não é de Esquerda e nem de Direita. Zé Pelintra é trabalhador de Deus pela regência de Oxalá e Ogum. A ele tudo é permitido, desde que visando a Caridade.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Zé Pelintra - Parte 2



ZÉ PELINTRA É MALANDRO?



Segundo Marcel Oliveira, em seu excelente livro Zé Pelintra, a Revelação (o qual recomendo fortemente a leitura), diz que Zé Pelintra enquanto mestre juremeiro ostentava sua maior riqueza não em seus trajes, mas em seu sorriso, em sua alegria.

Ainda no Catimbó, encarnado e já como Mestre Zé Preto, era chamado por muitos de malandro, não de forma pejorativa, mas justamente por querer ajudar a todos com sorriso no rosto e conseguindo trabalhar da mesma forma, seja na fumaça da esquerda ou na fumaça da direita. 

Uma das grandes curiosidades sobre Mestre Zé Preto, o qual a partir deste ponto já chamaremos de Zé Pelintra, foi sua rápida passagem pelo Plano Espiritual antes de passar a trabalhar para a Espiritualidade, inicialmente nos próprios cultos do Catimbó. Se analisarmos a história de vários guia que atuam na Umbanda, por exemplo, seja de qual linha de trabalho for, o tempo de resgate daquele espírito para trabalhar na religião é realmente bastante demorado. Temos relatos de entidades que demoraram séculos até poderem trabalhar na Umbanda. Zé Pelintra, no entanto, passou pouquíssimo tempo se preparando para voltar a trabalhar, desta vez como Guia de Luz.

É sempre bom lembrar um conceito básico inerente ao trabalho espiritual de Entidades que passam a formar falanges, que nada mais são do que agrupamentos de espíritos com a mesma vibração: não existe a incorporação do falangeiro, ou, em outras palavras, do primeiro guia, o fundador da falange. Quando Zé Pelintra desencarnou, inicialmente ele trabalhava no mesmo Catimbó que frequentava enquanto encarnado. Quando passou se manifestar em outros cultos, não era o indivíduo  Mestre Zé Preto Pelintra, mas outros espíritos que eram ensinados por ele e atuavam com seu nome.

Com o passar dos anos, recebeu a autorização para se manifestar nas rodas do que eram conhecidas como Macumbas Cariocas, algo similar a nossa amada Umbanda. Desde suas primeiras aparições, os Guias que atuavam sob sua tutela vinham com a roupagem do malandro carioca, sujeito trajando vestimenta sempre bastante alinhada, muito chique e garboso, ostentador de tudo que é de bom gosto, porém bastante simples no falar e com uma ginga bastante singular. Sua figura principal é  a de um senhor de meia idade, moreno, usando terno branco, chapéu branco com fita vermelha, gravata vermelha, sapato bicolor vermelho e branco, com camisa branca. 


Marcel Oliveira nos diz que Zé Pelintra está longe de ser um marginal, e que representa todos aqueles que se sentem marginalizados por preconceitos, seja eles de qualquer origem. A figura do malandro carioca associado a Zé Pelintra se dá justamente por conta desta forma discreta de sincretismo. Quando teve a autorização de trabalhar na Umbanda, inicialmente vinham junto a linha dos Baianos e eram os mestres juremeiros de Seu Zé Pelintra, pela natural associação a religião do Catimbó, originária no Nordeste brasileiro. Por serem exímios manipuladores da fumaça de esquerda no Catimbó, puderam trabalhar de uma forma bastante tranquila nas Giras de Exu e Pombagira. Foi apenas após conseguirem a possibilidade de trabalhar com sua própria Linha de Trabalho na Umbanda, que os Malandros puderam se manifestar.

Dito isso, vale ressaltar que a Linha de Zé Pelintra é uma e a linha dos Malandros é outra diferente, com propósitos e formas de atuação distinta, porém ambas são regidas por Seu Zé Pelintra, aquele mesmo Mestre Zé Preto do Catimbó. Malandro é malandro, Zé é Zé, porém todo Malandro tem um pouco de Zé e todo Zé tem um pouco da malandragem. Sendo assim, são todos regidos por Oxalá e desempenham importante trabalho perante a Espiritualidade Amiga.