Quando decidi escrever um texto
sobre nossos amados Pretos Velhos, tinha em mente não me restringir ao óbvio de
outros estudos, que é falar sobre seu cachimbo, o porque de sua incorporação
curvada, suas mirongas e coisas do tipo. A abordagem seria algo um pouco
diferente, com informações diretamente dos Guias sobre como é o trabalho deles
no Plano Espiritual, apresentando detalhes que, ao menos para mim, eram
desconhecidos. Outra coisa que procurei bastante e encontrei poucas
referências, eram questões inerentes a parte social dos Pretos Velhos falangeiros
enquanto encarnados, ou seja, falar um pouco sobre a escravidão para entender o
contexto de como aconteceu sua transição de escravo para um Guia de Luz.
Para entender quem eram os
escravos africanos, precisamos ter a clara noção que o comércio negreiro atlântico
(escravos levados da África para o Continente Americano), apesar de ter um custo
humano extremamente alto, com suas quase 12 milhões de mortes, foi bastante
desigual. Não eram todas as regiões da África viram sua população sendo
negociada com os europeus; Costa do Marfim tinha sua relação comercial baseada
em produtos têxteis e no marfim. Na região do Gabão quase não existia tráfico
de pessoas. O reino de Benin (atual Nigéria), no entanto, serviu como maior
base de relações comerciais de escravos até meados de 1530, e depois voltou com
força no Século XVIII, devido uma guerra civil na Nigéria entre 1716 e 1732.
Algumas pessoas de forma
desavisada ainda acreditam que os africanos eram escravizados por livre e
espontânea vontade, o que está longe de ser verdade. Ocorre que na época o
comércio de africanos negros era permitido pelas leis locais, porém existia uma
forte resistência africana e, sem esse movimento de resistência, o número de
mortes seria ainda mais devastador. Desde o início os africanos escravizados se
voltavam contra o tráfico de maneira bastante sistemática, promovendo fugas e
revoltas/motins. Boa parte dessas revoltas se davam dentro dos navios, quando
os mesmos ainda se encontravam perto da costa, para que os escravos pudessem
retornar às comunidades que faziam parte. A maioria, porém, acabava morrendo no
mar (aí a explicação de chamarmos o mar de Calunga Grande, ou o Grande
Cemitério).
As nações africanas colonizadas
por Portugal, no entanto, tinham uma forte aproximação com os colonos, portanto
foram as primeiras a fundir o regime costumeiro da África com o aparato
jurídico europeu, contribuindo para a extinção do tráfico atlântico de escravos.
A nação de Angola foi a grande expoente deste movimento. Quando ocorreu, no
entanto, o descobrimento do Brasil pelos portugueses, viu-se necessário
alterações nas leis existentes, para que o tráfico atlântico pudesse voltar a
acontecer, já que os índios nativos do Brasil não tinham a mesma forma de
trabalhar que os africanos, tendo um grande conhecimento no que tangia à produção
agrícola, e nada mais que tivesse valor comercial para ser explorado. Com isso,
o Brasil passou a receber uma grande quantidade de escravos africanos,
especialmente Gana, Nigéria, Angola, Cabinda, Costa da Mina, Congo e Guiné. Os
escravos dessas nações somaram algo em torno de 4,8 milhões de indivíduos
durante a colonização até a Abolição, o que representa 86% de toda população
que desembarcava no Brasil (os outros 14% eram divididos entre colonos e imigrantes).
No período Colonial os negros
desenvolveram uma intensa vida associativa. Mesmo quando escravizados,
encontraram diversas maneiras de se reunir com seus pares. Algumas formas
organizacionais - como as maltas de capoeira e os terreiros de candomblé -
foram perseguidas; outras, como as irmandades religiosas sob a égide da Igreja
católica e as agremiações de ajuda mútua, eram toleradas pela sociedade em
geral. Todas tinham como objetivo satisfazer necessidades sociais, econômicas,
culturais, religiosas e humanas de um segmento populacional que vivia em
condições adversas. A abolição da escravidão, em 13 de maio de 1888, não
resolveu todas essas necessidades. No entanto, abriu aos negros a possibilidade
de se organizar sob condições diferentes daquelas do regime de cativeiro, com
mais margens de liberdade.
Algumas dessas organizações foram
realmente importantes e tiveram papel de destaque na época. A Sociedade Beneficente
Estrela da Redenção, no Rio de Janeiro; a Sociedade Beneficente Luiz Gama, em
Campinas e o Club Beneficente 13 de Maio, em Curitiba, foram criados como
verdadeiros partidos políticos com o intuito claro de atender aos direitos dos
negros recém libertos (toda essas 3 organizações, se instituíram em 1888, poucos
meses após a assinatura da Lei Áurea). No início do Século XX, no entanto,
várias novas associações surgiram, desta vez com cunho não apenas político, mas
com viés de inserção do negro na sociedade, buscando direitos iguais não apenas
no papel, mas na prática diária, cujas leias não garantiam nada o que acontecia
na realidade.
O Brasil sempre foi um país muito
religioso, mesmo naquela época. Existia uma grande parte da sociedade negra que
eram, sim, representados pelo Catolicismo. Uma outra parte, porém, poderia até
ter sua fé na Igreja Católica, mas observava o passado e percebia que nada de realmente
relevante era feito pela Igreja para reverter a situação incômoda do
preconceito racial existente. Foi nesse instante que, em uma casa humilde em Niterói,
a Umbanda seria anunciada para todos, como sendo uma religião que atenderia a
todos, sem distinção alguma de classe social ou etnia e, além de tudo,
afrontaria a situação presente e teria em sua base a figura de um escravo
negro, o qual traria todo seu conhecimento e sua simplicidade, mas que, com
toda autoridade dada pela Espiritualidade, comandaria, junto aos espíritos dos
Caboclos (também mal representados na sociedade), toda uma nova religião.
A Umbanda mostrava desde seu
nascedouro que olhava de frente para as mazelas da sociedade e atuava de forma
bastante clara enquanto, não apenas religião, mas uma ferramenta de mudança
social bastante significativa. Para o umbandista, o Preto Velho é paz e amor,
mas para a sociedade racista e injusta da época, Preto Velho e a Umbanda eram
grandes afrontas, como veremos mais adiante.


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