quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Estudo Sobre Preto Velho - Parte 1


Quando decidi escrever um texto sobre nossos amados Pretos Velhos, tinha em mente não me restringir ao óbvio de outros estudos, que é falar sobre seu cachimbo, o porque de sua incorporação curvada, suas mirongas e coisas do tipo. A abordagem seria algo um pouco diferente, com informações diretamente dos Guias sobre como é o trabalho deles no Plano Espiritual, apresentando detalhes que, ao menos para mim, eram desconhecidos. Outra coisa que procurei bastante e encontrei poucas referências, eram questões inerentes a parte social dos Pretos Velhos falangeiros enquanto encarnados, ou seja, falar um pouco sobre a escravidão para entender o contexto de como aconteceu sua transição de escravo para um Guia de Luz.

Para entender quem eram os escravos africanos, precisamos ter a clara noção que o comércio negreiro atlântico (escravos levados da África para o Continente Americano), apesar de ter um custo humano extremamente alto, com suas quase 12 milhões de mortes, foi bastante desigual. Não eram todas as regiões da África viram sua população sendo negociada com os europeus; Costa do Marfim tinha sua relação comercial baseada em produtos têxteis e no marfim. Na região do Gabão quase não existia tráfico de pessoas. O reino de Benin (atual Nigéria), no entanto, serviu como maior base de relações comerciais de escravos até meados de 1530, e depois voltou com força no Século XVIII, devido uma guerra civil na Nigéria entre 1716 e 1732.

Algumas pessoas de forma desavisada ainda acreditam que os africanos eram escravizados por livre e espontânea vontade, o que está longe de ser verdade. Ocorre que na época o comércio de africanos negros era permitido pelas leis locais, porém existia uma forte resistência africana e, sem esse movimento de resistência, o número de mortes seria ainda mais devastador. Desde o início os africanos escravizados se voltavam contra o tráfico de maneira bastante sistemática, promovendo fugas e revoltas/motins. Boa parte dessas revoltas se davam dentro dos navios, quando os mesmos ainda se encontravam perto da costa, para que os escravos pudessem retornar às comunidades que faziam parte. A maioria, porém, acabava morrendo no mar (aí a explicação de chamarmos o mar de Calunga Grande, ou o Grande Cemitério).

As nações africanas colonizadas por Portugal, no entanto, tinham uma forte aproximação com os colonos, portanto foram as primeiras a fundir o regime costumeiro da África com o aparato jurídico europeu, contribuindo para a extinção do tráfico atlântico de escravos. A nação de Angola foi a grande expoente deste movimento. Quando ocorreu, no entanto, o descobrimento do Brasil pelos portugueses, viu-se necessário alterações nas leis existentes, para que o tráfico atlântico pudesse voltar a acontecer, já que os índios nativos do Brasil não tinham a mesma forma de trabalhar que os africanos, tendo um grande conhecimento no que tangia à produção agrícola, e nada mais que tivesse valor comercial para ser explorado. Com isso, o Brasil passou a receber uma grande quantidade de escravos africanos, especialmente Gana, Nigéria, Angola, Cabinda, Costa da Mina, Congo e Guiné. Os escravos dessas nações somaram algo em torno de 4,8 milhões de indivíduos durante a colonização até a Abolição, o que representa 86% de toda população que desembarcava no Brasil (os outros 14% eram divididos entre colonos e imigrantes).  

No período Colonial os negros desenvolveram uma intensa vida associativa. Mesmo quando escravizados, encontraram diversas maneiras de se reunir com seus pares. Algumas formas organizacionais - como as maltas de capoeira e os terreiros de candomblé - foram perseguidas; outras, como as irmandades religiosas sob a égide da Igreja católica e as agremiações de ajuda mútua, eram toleradas pela sociedade em geral. Todas tinham como objetivo satisfazer necessidades sociais, econômicas, culturais, religiosas e humanas de um segmento populacional que vivia em condições adversas. A abolição da escravidão, em 13 de maio de 1888, não resolveu todas essas necessidades. No entanto, abriu aos negros a possibilidade de se organizar sob condições diferentes daquelas do regime de cativeiro, com mais margens de liberdade.

Algumas dessas organizações foram realmente importantes e tiveram papel de destaque na época. A Sociedade Beneficente Estrela da Redenção, no Rio de Janeiro; a Sociedade Beneficente Luiz Gama, em Campinas e o Club Beneficente 13 de Maio, em Curitiba, foram criados como verdadeiros partidos políticos com o intuito claro de atender aos direitos dos negros recém libertos (toda essas 3 organizações, se instituíram em 1888, poucos meses após a assinatura da Lei Áurea). No início do Século XX, no entanto, várias novas associações surgiram, desta vez com cunho não apenas político, mas com viés de inserção do negro na sociedade, buscando direitos iguais não apenas no papel, mas na prática diária, cujas leias não garantiam nada o que acontecia na realidade.

O Brasil sempre foi um país muito religioso, mesmo naquela época. Existia uma grande parte da sociedade negra que eram, sim, representados pelo Catolicismo. Uma outra parte, porém, poderia até ter sua fé na Igreja Católica, mas observava o passado e percebia que nada de realmente relevante era feito pela Igreja para reverter a situação incômoda do preconceito racial existente. Foi nesse instante que, em uma casa humilde em Niterói, a Umbanda seria anunciada para todos, como sendo uma religião que atenderia a todos, sem distinção alguma de classe social ou etnia e, além de tudo, afrontaria a situação presente e teria em sua base a figura de um escravo negro, o qual traria todo seu conhecimento e sua simplicidade, mas que, com toda autoridade dada pela Espiritualidade, comandaria, junto aos espíritos dos Caboclos (também mal representados na sociedade), toda uma nova religião.

A Umbanda mostrava desde seu nascedouro que olhava de frente para as mazelas da sociedade e atuava de forma bastante clara enquanto, não apenas religião, mas uma ferramenta de mudança social bastante significativa. Para o umbandista, o Preto Velho é paz e amor, mas para a sociedade racista e injusta da época, Preto Velho e a Umbanda eram grandes afrontas, como veremos mais adiante.

Nenhum comentário:

Postar um comentário