quarta-feira, 28 de novembro de 2018

Padre Cícero e os Baianos da Umbanda


PADRE CÍCERO

Quem frequenta terreiro de Umbanda há algum tempo certamente ouviu falar algo sobre Padre Cícero, especialmente nos atendimentos com os Baianos da vertente do Cangaço. Eu mesmo me surpreendi há uns 2 anos quando um Guia que atua sob a irradiação de Corisco (que em sua história carrega a marca de ter sido o braço direito de Lampião e, talvez, o nome mais temido do Cangaço) falou comigo sobre como ele era devoto de Padre Cícero mesmo após ter desencarnado.

O fato do guia ter sua fé depositada em algum mártir após o desencarne não é o ponto principal (mas, sim, merece um estudo mais aprofundado futuramente), mas o que me deixou realmente intrigado é por qual motivo um padre excomungado pela Igreja Católica consegue ter a devoção de tantas pessoas, incluindo Guias Espirituais de grande evolução.
A história de Padre Cícero é repleta de controvérsias, e começa em meados de 1844 na cidade de Crato, interior do Ceará com seu nascimento. Aos 12 anos, inspirado pela história de São Francisco de Sales, fez voto de castidade, o que era algo bastante incomum na época, especial no interior do Nordeste. Em 1860, aos 16 anos, Cícero foi estudar em Cajazeiras, Paraíba, onde ficou apenas dois anos, pois seu pai faleceu em 1862. Isso o obrigou a parar de estudar e voltar para ajudar sua mãe e suas duas irmãs solteiras. A perda do pai trouxe graves problemas financeiros à família. Em 1865, aos 21 anos, entrou no seminário em Fortaleza.

Padre Cícero foi ordenado no dia 30 de novembro de 1870, com 26 anos. Voltou para Crato, à espera de uma paróquia para liderar. Nesse tempo, lecionou Latim no Colégio local.

No Natal de 1871, aos 28 anos, Padre Cícero conheceu o povoado de Juazeiro. Ao chegar na cidade, teve um sonho onde viu Jesus Cristo e os doze apóstolos junto a uma multidão de pessoas que carregavam seus pertences e levavam ao local onde ele se encontrava (em sonho). Jesus teria se virado para ele e dito “E você, Padre Cícero, tome conta deles”.

Entendendo que aquilo seria realmente uma mensagem de Jesus, decidiu acatar e adotou Juazeiro como seu lar. Foi pároco da única igreja local, a qual dedicou todo seu tempo não apenas com as pregações aos fiéis, mas também na reforma da estrutura física da paróquia. Até seus 45 anos de idade nada de muito especial ou diferente acontecia, porém em 1889 seu primeiro “milagre” (e, por consequência, sua primeira polêmica) surgiu: em uma missa, ao ministrar a comunhão a uma beata (a humilde costureira e doceira Maria Araújo), a hóstia consagrada teria se transformado em sangue.

Toda a imprensa local noticiaram o fenômeno, que ocorreu outras vezes. A Igreja Católica prontamente acusou Padre Cícero e a beata de fraude. Apesar do Vaticano aceitar, sim, que aquilo seria a evidência de um milagre, os responsáveis pela Igreja Católica no Brasil além de não aceitarem, ainda ridicularizavam a situação. Pierre-Auguste Chevalier, reitor do Seminário da Prainha dizia que “Jesus Cristo não iria sair da Europa para fazer milagres no sertão do Brasil”.

Apesar da não aceitação pela Igreja, fato é que os milagres atribuídos a Padre Cícero eram vistos por todos, e isso causou uma grande admiração (e posterior devoção) de milhares de pessoas que peregrinavam para conhecer o Padre e pedir curas.

Remaria de fiéis a Juazeiro nos dias atuais
Naquele mesmo ano Cícero foi banido da Igreja, mas continuava sendo referência espiritual e moral para toda a população mais humilde do Nordeste, o que lhe rendeu a oportunidade de se tornar prefeito de Juazeiro, para que conseguissem a emancipação política.

Apesar de possuir grande sabedoria, não era um grande orador, mas como sempre recebia visita das mais simples pessoas do Sertão, falava com eles o que conhecemos como “a língua do povo”. Chamava quem o procurava de “amiguinhos”, e era bastante carinhoso, apesar de severo quanto aos bons costumes da época, exigindo que todos evoluíssem. Sua frase mais famosa era “Quem bebeu não beba mais, quem roubou não roube mais, quem matou não mate mais”.

Como não podia mais celebrar batismos, ele próprio aceitava ser padrinho de inúmeras crianças, vindo daí o título de Padrinho Padre Cícero, que pela corruptela da linguagem popular, se tornou Padim Pade Ciço (aliás, foi dessa forma que o Guia de Luz a qual me referi no começo o chamou).

Vejam que Padre Cícero (que não era mais padre, mas não consigo deixar de chamá-lo desta forma) era uma pessoa humilde, mas com grande sabedoria. Argumentava com os poderosos da cúpula católica ao mesmo tempo que conversava com seus “amiguinhos” mais humildes e necessitados. Sabendo que não havia qualquer fraude nos milagres que operava, se mantinha firme e resoluto, ao ponto de não se abalar com sua expulsão da Igreja. Eu me atrevo a dizer que existe uma grande analogia entre Padre Cícero e nossos amados Pretos Velhos, tão perseguidos pelo homem branco, mas sempre íntegros em seus ideais.

Padre Cícero assina carta para Lampião
Em 1926, porém, aconteceu algo que mudaria a vida de um dos nomes mais importantes da história do Nordeste Brasileiro. Virgulino Ferreira da Silva já era conhecido como o temível Lampião, líder do Cangaço e possivelmente a pessoa mais temida do país, quando recebeu uma carta assinada por Padre Cícero, o qual Lampião era devoto fervoroso. No encontro que aconteceu em março, Lampião foi aconselhado a deixar a vida de violência que o acompanhava e pudesse passar a defender a região da Coluna Prestes. Lampião aceitou a oportunidade de mudar de vida e, além do aconselhamento de seu santo vivo (como ele o chamava), também recebeu armas, uma farda e a alcunha de capitão do Exército, passando a se chamar Capitão Virgulino Ferreira.

Todos que conhecem a história do Cangaço sabem que aquilo não teria um final desejado, já que Lampião não conseguiria simplesmente deixar para trás seu passado de muito sangue. O que ocorreu (e isso, amados leitores umbandistas, é uma opinião muito pessoal) foi a chancela de Padre Cícero junto ao Cangaço, que era um movimento que apesar de bastante violento, tinha na Justiça (a verdadeira, não a impressa nas páginas da Constituição) o seu norte, mas precisava ser redirecionado, para que continuasse existindo, mas sem a violência característica.

O Bando de Lampião
Mudar a forma de pensar de uma pessoa é muito difícil, então o que podemos dizer de todo um grupo que pensa há décadas da mesma forma? Ainda mais complicado. O que aconteceu, porém, era que o líder dos cangaceiros passou a pedir que o uso da violência fosse cada vez mais comedido, porém se fosse necessário mediante a afronta aos princípios morais, poderia ser realizado. Até então, o Cangaço era tido como um movimento único e exclusivamente político e social, mas a partir do encontro de Lampião com Padre Cícero, passou a ter um cunho quase religioso, devido à devoção do chefe dos cangaceiros. Os principais nomes do Cangaço, os que andavam lado a lado com Capitão Virgulino (Corisco, Zé Baiano, Zé Sereno, Canário, Maria Bonita, etc) iniciaram um processo de conversão à religiosidade tendo em Padre Cícero o ponto de referência moral a ser seguido.

Após seus desencarnes, cada um teve que pagar por aquilo que fez, e alguns cangaceiros puderam trabalhar na Umbanda para reparar seus erros. Não por coincidência os falangeiros que atuam na linha dos Baianos (do Cangaço) são justamente aqueles que eram devotos de Padre Cícero, como Corisco e Maria Bonita (que são facilmente encontrados trabalhando nos Terreiros da atualidade).

O poder da Fé que exalava de uma forma natural de Padre Cícero é tão grande que, mesmo em um país fundamentalmente católico (especialmente no século passado) e tendo sido expulso da Igreja, ele consegue converter até a mais ríspida pessoa, ao ponto de levar sua devoção para o Plano Espiritual. Padim Pade Ciço é tão da Umbanda quando qualquer Guia de Luz.

Saravá ao Padrinho de todos.

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